Portuguese poem
Esperando uma bonança
by Gregório de Matos (1636–1696)
Esperando uma bonança, cansado já de esperar um pescador, que no mar tinha toda a confiança: receoso da tardança de um dia, e mais outro dia pela praia discorria, quando aos olhos de repente uma onda lhe pôs patente, quanto uma ausência encobria.
Entre as ondas flutuando um vulto se divisava, sendo, que mais flutuava, quem por ela está aguardando: e como maior julgando o tormento da demora como se Leandro fora, lançar-se ao mar pertendia, quando entre seus olhos via quem dentro em seu peito mora.
Mora em seu peito uma ingrata tão bela ingrata, que adrede pescando as demais com rede, ela só com a vista mata: as redes, de que não trata vinha agora recolhendo; porque como estava vendo todo o mar feito uma serra, vem pescar almas à terra, de amor pescadora sendo.
Logo que à praia chegou, tratou de desembarcar, mas sair o sol do mar só esta vez se admirou: tão galharda enfim saltou, que quem tão galharda a via, justamente presumia, para mais abono seu, que era Vênus, que nasceu do mar, pois do mar saía.
Pôs os pés na branca areia, que comparada cos pés ficou pez, em que lhe pes, porque em vê-la a areia areia: pisando a margem, que alheia de um arroio os dois extremos, todos julgamos, e cremos Galatéia a Ninfa bela, pois bem que vimos a Estrela, fomos cegos Polifemos.
Toda a concha, e toda a ostrinha, que na praia achou, a brio, mas nenhum aljôfar viu, que todos na boca tinha: porém se em qualquer conchinha pérolas o sol produz, daqui certo se deduz, que onde quer, que punha os olhos, produz pérolas a molhos pois de dois sóis logra a luz.
Em uma portátil silha ocaso a seu sol entrou, e pois tal peso levou, não sentiu peso a quadrilha: vendo tanta maravilha tanta luz de monte a monte, abrasar-se o Horizonte, temi com tanto arrebol, pois sobre as Pias do sol ia o carro de Faetonte.