Portuguese poem
Eu, que me não sei calar
by Gregório de Matos (1636–1696)
Eu, que me não sei calar, mas antes tenho por míngua, não purgar-se qualquer língua a risco de arrebentar: vos quero, amigo, contar, pois sois o meu secretário, um sucesso extraordinário, um caso tremendo, e atroz; porém fique aqui entre nós.
Do Confessor Jesuíta, que ao ladrão do confessado não só absolve o pecado, mas os furtos lhe alcovita: do Percursor da visita, que na vanguarda marchando vai pedindo, e vai tirando, o demo há de ser algoz: porém fique aqui entre nós.
O ladronaço em rigor não tem para que o dizer furtos, que antes de os fazer, já os sabe o confessor: cala-os para ouvir melhor, pois com ofício alternado confessor, e confessado ali se barbeiam sós: porém fique aqui entre nós.
Aqui o Ladrão consente sem castigo, e com escusa, pois do mesmo se lhe acusa o confessor delinqüente: ambos alternadamente um a outro, e outro a um o pecado, que é comum confessa em comua voz: porém fique aqui entre nós.
Um a outro a mor cautela vem a ser neste acidente confessor, e penitente, porque fique ela por ela: o demo em tanta mazela diz: faço, porque façais, absolvo, porque absolvais, pacto inopinado pôs; porém fique aqui entre nós.
Não se dá a este Ladrão penitência em caso algum, e somente em um jejum se tira a consolação: ele estará como um cão de levar a bofetada: mas na cara ladrilhada emenda o pejo não pôs: porém fique aqui entre nós.
Mecânica disciplina vem a impor por derradeiro o confessor marceneiro ao pecador carapina: e como qualquer se inclina a furtar, e mais furtar, se conjura a escavacar as bolsas um par de enxós: porém fique aqui entre nós.
O tal confessor me abisma, que releve, e não se ofenda, que um Frade Sagrado venda o sagrado óleo da crisma: por dinheiro a gente crisma, não por cera, havendo queixa, que nem a da orelha deixa, onde crismando a mão pôs: porém fique aqui entre nós.
Que em toda a Franciscania não achasse um mau Ladrão, quem lhe ouvisse a confissão, mais que um padre da panhia! nisto, amigo, há simpatia, e é, porque lhe veio a pêlo, que um atando vá no orelo, e outro enfiando no cós: porém fique aqui entre nós.
Que tanta culpa mortal se absolva! eu perco o tino, pois absolve um Teatino pecados de pedra, e cal: quem em vida monacal quer dar à Filha um debate condenando em dote, ou date vem a dar-lhe o pão, e a noz; porém fique aqui entre nós.
As Freiras com santas sedes saem condenadas em pedra, quando o ladronaço medra roubando pedra, e paredes: vós, amigo, que isto vedes, deveis a Deus graças dar por vos fazer secular, e não zote de albernoz: porém fique aqui entre nós.