Versos Portuguese Gregório de Matos Fez-se a segunda jornada

Portuguese poem

Fez-se a segunda jornada

by (1636–1696)

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Fez-se a segunda jornada da comédia, ou comedia, que inda nos deu melhor dia, do que a jornada passada: vimos a mesma selada, e de vinho a mesma cópia, de ovos maior cornucópia que a de Almatéia florida, e sendo a mesma comida, contudo não era a própria.

Já Pedro esperava adrede da culatra tão sarnento, que embalançando-se ao vento era um cação em rede: versos a matéria pede, me disse a sua lazéria, e se os faço com miséria, não se espante, quem os lê, de que tanta sarna dê (se é podre) tanta matéria.

Cantou-se galhardamente tais solos, que eu disse, ô que canta o pássaro só, e os mais gritam na semente: tocou-se um som excelente, que Arromba lhe vi chamar, saiu Temudo a bailar, e Pedro, que é folgazão bailou com pé, e com mão, e o cu sempre num lugar.

Pasmei eu da habilidade tão nova, e tão elegante, porque o cu sempre é dançante nos bailes desta cidade: mas em tal calamidade tinha Pedro o cu sarnudo, que dando de olho, ao Temudo disse pelo socarrão, assim tivera o cu são, como tenho o cu sisudo.

Pôs-se a mesa, e escabelos, foram seguindo-se os pratos, que eram tanto à vista gratos, como ao gasnate eram belos: Pedro se pôs a lambê-los, e dando-se a Berzabu de não beber com Jelu o licor, que o entorpeça, porque o que dá na cabeça, temeu, lhe desse no cu.

Não quis o cu inflamar, por isso bebeu só água, do que nós com grande mágoa nos pusemos a chorar: este fim teve um folgar de tanto gosto, e alinho, de que eu colho, e esquadrinho a exemplo da vida breve, que quem rindo o vinho bebe, chorando desbebe o vinho.