Portuguese poem
Exercite os mais subidos
by Gregório de Matos (1636–1696)
Oh quem tivera empregados em vós, meu Amor divino, cuidados, que de contino se multiplicam cuidados: fazei, que a vós levantados se acreditem de luzidos pensamentos, que abatidos seguem do mundo os enganos, e que deixando os humanos, Exercite os mais subidos.
Quem conquistando, Senhor, vosso amor, perdera a vida, porque a dá por bem perdida quem a perde em vosso amor! Se eu, terníssimo Pastor, acudira a vossos brados, então sim, que os meus cuidados coroara de alta dita, já que fino se acredita Quem busca humanos agrados.
Porque aqueles, que vos amam, e em tais delícias se enlevam, o prêmio consigo levam, e filhos vossos se aclamam: que como no amor se inflamam, os que são vossos amados, sendo já purificados por filhos do vosso amor, quem há de negar, Senhor, Que sempre são levantados?
Quem de contino a bradar por vós no maior rigor nas enchentes desse amor não acha de graça um mar? quero com ânsias mostrar a dor, a pena, os gemidos; pois sendo a vós repetidos, serão de vós bem lembrados, que são bem-aventurados Os que são de vós ouvidos.