Portuguese poem
Carta
by João de Deus
Maria! vêr-te á porta a fazer meia, Olhando para mim de vez em quando, É o que n'esta vida me recreia.
Acordo até de noite suspirando Por que rompa a manhã e tenha o gosto De te vêr já tão cedo trabalhando.
Desde pela manhã até sol-posto Que não tens de descanço um só momento; Por isso tens tão bella côr de rosto.
E eu pallido, Maria! O pensamento Não é trabalho que nos dê saude, Esta imaginação é um tormento.
Que bello tempo aquelle em quanto pude Levar, como tu levas, todo o dia N'essa vida chamada ingrata e rude!
Nunca soube o que foi melancolia, Nunca provei as lagrimas salgadas Com que a nossa alma as penas allivia;
Andava sim por essas cumiadas Ao sol, á chuva, muita vez, sósinho, Vendo os valles, das rochas escarpadas;
Descendo pelo córrego estreitinho, De pontal em pontal, cortando o matto, Pelas chapadas, fóra de caminho;
Mas não era que já o teu retrato Me andasse a mim no coração impresso, Onde hoje o trago no maior recato,
E um desengano teu que não mereço Me tivesse tirado a fé tão dôce D'alcançar algum dia o que appeteço.
Não foi, não, a paixão que assim me trouxe Tão erradio a mim, digo a verdade E nem eu te negava se assim fosse.
É que a gente na sua mocidade Não cabe em si, não pára de contente, E assim fui eu na flôr da minha idade.
Tu eras n'esse tempo simplesmente A flôr que vai nascendo e mais valia Seres tão tenra ainda e innocente.
Já esse lindo pé que tens, Maria! Esse quadril tão largo, e cinta estreita, Me não vinha á idéa noite e dia;
Esses encontros de mulher perfeita, Esse peito redondo e arqueado Como o de pomba farta e satisfeita.
Talvez vivesse então mais socegado, Ou já que minha sorte é sempre triste Ao menos não andasse enfeitiçado.
Esse bello pescoço, não existe Outro assim torneado: o rosto é lindo E a tão meiga expressão ninguem resiste.
A bocca é tão vermelha que, em te rindo, Lembra-me uma romã aberta ao meio Quando já de madura está cahindo.
Esses olhos azues... que olhar! Receio E desejo estar sempre a contemplal-o; Não ha mais dôce e mais custoso enleio:
Eu não oiço fallar então, nem fallo De enlevado que estou e, juntamente, Gemendo e abafando os ais que exhalo.
Oh nuvem da manhã resplandecente, Manto real de sêda delicada, Cada fio um grilhão que prende a gente.
Bem podias, Maria! andar tapada Só com o teu cabello, á semelhança Do sol em nuvem de manhã doirada.
É tudo encantador. A gente cança, Cança de estar olhando e sempre vendo Um novo encanto a cada olhar que lança.
E se essa linda voz nos sái dizendo As mimosas palavras que costuma, Sente-se a gente logo derretendo;
Que além d'um rosto tão perfeito, em summa Coube-te em sorte um coração perfeito E em ti não ha, Maria! falta alguma.
Oh que ditoso, alegre e satisfeito Não viverá o homem que algum dia Sentir pular-te o coração no peito,
E que em deliciosissima agonia, Vendo-te já os olhos desmaiando Como desmaia o céo á luz do dia,
Nas azas da ventura atravessando Os espaços d'um extasi ineffavel Abraçado comtigo fôr voando Lá para onde tudo é bello e estavel!
Messines.
* * * * *
--Dá-me esse jasmim de cera, Minha flôr? --Mas e depois se lh'o dera, Meu senhor?
--Depois? era uma lembrança. --Mas de quê? --D'uma tão linda criança, Já se vê.
--Oh tão linda! Mas, parece, Sendo assim, Que inda quando lhe não désse Tal jasmim...
--Não me esquecia, de certo. --Nunca já? --Nunca.--Nunca, é muito incerto, Mas... vá lá.
--E a rosa, que bem lhe fica, Dá-m'a, flôr? --Oh a rosa, a rosa pica, Meu senhor!
Messines.
* * * * *