Versos Portuguese João de Deus Escreve!

Portuguese poem

Escreve!

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Não sei o que suppôr Do teu silencio. Escreve! Quem é amado deve Ser grato ao menos, flôr! Se eu fosse tão feliz Que te fallasse um dia De viva voz, diria Mais do que a carta diz. Mas, olha, tal qual é Não rias d'esse escripto Que, pouco ou muito, é dito Tudo de boa fé. Ha n'esse teu olhar A dôce luz da lua, Mas luz que se insinua A ponto de abrazar... Pareça n'elle sim Que ha só doçura, embora: Ha fogo que devora... Que me devora a mim! Que mata, mas que dá Uma suave morte; Mata da mesma sorte Que uma arvore que ha: Que ao pé se lhe ficou Acaso alguem dormindo Adormeceu sorrindo... Porém não acordou. Esse teu seio então, Que encantadora curva! Como de o vêr se turva A vista e a razão! Como até mesmo o ar Suspende a gente logo... Pregando olhos de fogo Em tão formoso par! Oh seio encantador, Delicioso seio! Que jubilo, que enleio Libar-lhe o nectar, flôr! Eu tenho muita vez Já visto a borboleta Na casta violeta Poisar os leves pés: E n'um enlevo tal, N'uma avidez tamanha, Que a gente a não apanha Com dó de fazer mal! Pegada á flôr então No pé curvinho e molle, As azas nem as bole Toda sofreguidão! Poisou... adormeceu! Só vê, só ouve e sente O calix rescendente D'aquelle mel do céo! Pois vê com que prazer E com que ardente sêde Te havia... (que não hei-de!...) Tambem beijar, sorver! Mas eu só peço dó, Só peço piedade! Mata-me a saudade Com duas linhas só! Eu, a não ser em ti Achar allivios, onde? Escreve-me! responde Á carta que escrevi! Cançado de esperar Ás vezes quando sáio, Pensas que me distraio? Pois volto com pezar! Concentra-se-me em ti A alma de tal modo Que esse bulicio todo Nem o ouvi, nem vi! Ninguem te substitue, Porque só tu és bella! Que estrella a minha estrella, E que infeliz que eu fui! Mas devo-te suppôr Sempre indulgente e boa, Escreve-me e perdôa Meu violento amor! Respeita uma affeição Inutil mas sincera. Tu és mulher, pondera O que é uma paixão. Com sangue era eu capaz De te escrever; portanto, Tinta não custa tanto! E não me escreverás? Uma palavra, sim, Que me não amas... Queres? Em quanto me escreveres, Tu pensarás em mim! Só essa idéa, crê, Encerra mais doçura Que as provas de ternura Que outra qualquer me dê!

Lisboa.

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