Versos Portuguese João de Deus Salomão

Portuguese poem

Salomão

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--Arrebata na verdade, Mas como um canto de guerra, Porque ao mesmo tempo aterra Este ar e magestade.

O teu andar, que nobreza! E tem o pé uma graça Assim calçado, princeza!

Os joelhos, que perfeitos! Não ha ourives que faça Eixos de oiro mais bem feitos. Umbigo, qual é a taça, D'estas taças pequeninas Por onde a gente costuma Beber bebidas mais finas, Tão redondinha? Nenhuma.

É o ventre de tal modo Casto e fecundo, que apenas Um monte de trigo, todo Rodeado de açucenas Me parece haver no mundo Assim tão casto e fecundo.

O teu seio é um casal De corcinhas, que o seu pasto São açucenas do val: Nada mais timido e casto!

Lembra-me o pescoço a mim, Uma torre de marfim E os olhos, esses então Os dois lagos de Hesebão.

Vês a torre que apparece Lá no Libano, e que diz Para Damasco? parece Na lindeza esse nariz.

A cabeça vêl-a toda Por cima das mais, é bello, Como a serra do Carmelo, Toda collinas á roda.

O cabello é tal e qual Um grande manto real!

É tudo uma perfeição, Amada do coração!

Vêr-te é vêr uma parreira Armada n'uma palmeira; E lá em cima os teus peitos, No tamanho e no feitio, Dois cachos d'uvas perfeitos Que a parreira produziu. E eu disse d'esta maneira: Dois cachos d'uvas tão bellos Hei-de ir lá cima colhel-os; Que bem se vê que a doçura Corresponde á formosura; E que a tua bocca é pura E a respiração é sã Como o cheiro da maçã Quando se apanha madura.

--Como é suave e me encanta O que me estás a dizer! A voz da tua garganta Embebeda como o vinho, D'esse que a doçura é tanta Que se costuma beber Aos sôrvos, devagarinho.

És só meu e eu tambem Sou tua, de mais ninguem. Anda com a tua amada Morar para o campo, amor! Iremos de madrugada, Logo ao romper da manhã, Em se a gente levantando, Vêr se a vinha já tem flôr, Se está em flôr a romã E se a fruta vai vingando. Alli é que eu hei-de então Abrir-te o meu coração.

Estamos na primavera, A mandrágora já cheira, E em minha casa, estar lá, É como estar n'uma horta: Mesmo ao pé da nossa porta Temos quanta fruta ha. E o teu quinhão, meu amado! Assim do anno passado Como da que vem agora, Esse está sempre guardado.

Ouvisse-te eu n'esta hora Chamar mãi á minha mãi! Como se tu com effeito Fosses criado ao seu peito Assim como eu fui tambem: Então já eu te beijava Ás claras e te abraçava Sem vergonha de ninguem.

Vamos aonde ella dorme, A pedir a nossos paes A sua benção, conforme Costumam fazer os mais, E depois seja o que fôr É só mandar, meu amor!

Verás como te hei-de dar D'um vinho delicioso E d'um licor precioso, De romã, que has de gostar. ......................... Um braço já me elle passa Pelos hombros... e me abraça Pela cinta... o meu amado! --Deixai-a dormir, cuidado, Moças de Jerusalem! Deixai dormir o meu bem Um somno bem socegado. ......................

Messines.

* * * * *

Ouviste-me não sei quê Trincolejar n'algibeira, Acudiste mui lampeira, Que me amavas. Já se vê.

Tens amado mais de mil, Não era agora o primeiro. Mas pensas que era dinheiro? É a pedra e o fuzil.

Messines.