Versos Portuguese João de Deus Saudade

Portuguese poem

Saudade

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Tu és o cálix; Eu, o orvalho! Se me não vales, Eu o que valho?

Eu se em ti caio E me acolheste Torno-me um raio De luz celeste!

Tu és o collo Onde me embalo, E acho consolo, Mimo e regalo:

A folha curva Que se aljofara, Não d'agoa turva, Mas d'agoa clara!

Quando me passa Essa existencia, Que é toda graça, Toda innocencia,

Além da raia D'este horizonte-- Sem uma faia, Sem uma fonte;

O passarinho Não se consome Mais no seu ninho De frio e fome,

Se ella se ausenta, A boa amiga, Ah! que o sustenta E que o abriga!

Sinto umas magoas Que se confundem Com as que as agoas Do mar infundem!

E quem um dia Passou os mares É que avalia Esses pezares!

Só quem lá anda Sem achar onde Sequer expanda A dôr que esconde;

Longe do berço, Morrendo á mingoa, Paiz diverso... Diversa lingoa...

Esse é que sabe O meu tormento, Mal se me acabe Aquelle alento!

Ah, nuvem branca Ah, nuvem d'oiro! Ninguem me estanca Amargo choro;

E assim que passes Mesmo de largo... Vê n'estas faces Se ha pranto amargo.

Tu és o norte Que me desvias De ir dar á morte Todos os dias;

A larga fita Que d'alto monte Cerca e limita O horizonte!

Tu és a praia Que eu sollicito! Tu és a raia D'este infinito!

Se ha uma gruta Onde me esconda Á força bruta Que traz a onda;

Á força immensa D'esta corrente D'alma que pensa, Alma que sente;

Se ha uma véla, Se ha uma aragem, Se ha uma estrella, N'esta viagem...

É quem eu amo, A quem adoro! E por quem chamo! E por quem choro!