Versos Portuguese João de Deus Sonho

Portuguese poem

Sonho

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Ha muitos sonhos de imaginação, De mera phantasia: Outros, que são a voz da prophecia, A voz da intuição, A voz do coração.

Pões fé em sonhos taes, Maria?... Pões? E fazes bem, que ás vezes Sonha a gente venturas e revezes, Que se tornam depois Bem certos! Ouve pois:

Sonhei que era n'um valle. Anoiteceu. Então duas estrellas. (Tão lucidas, tão limpidas, tão bellas!) Vieram lá do céo Alumiar-me. E eu...

Não sabia e pergunto: o que buscaes, Alampadas celestes! Vós, cá por este mundo... o que perdestes? Na terra não achaes Senão prantos e ais!

Respondem-me as estrellas (como a quem As tivesse captivas, Tão tremulas! as bellas fugitivas) --Buscavamos alguem Que nos quizesse bem:

É sorte nossa, é nossa condição Dar luz, ser norte e guia; Mas de mais boamente se alumia Na terra um coração Que nos tem affeição.--

--Pois e se vós do céo, lá onde até Se ignora o que são dôres, Vindes á terra procurar amores, Estrellas! se assim é, Tendes-me aqui ao pé:

Que em summa a noite da minha alma é tal Que eu pobre viajante Ando... se para traz, se para diante, N'este profundo val, Não sei nem bem mal.

Guiai-me pois, estrellas do Senhor! E a jura que vos faço É que na terra não darei um passo Senão só por amor Do vosso resplendor!--

Ellas então sorrindo-se, que eu vi, Tão meigas e suaves! Voaram como duas lindas aves; Indo poisar ahi... N'esse teu rosto... em ti!

Lisboa.

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