Versos Portuguese José Bonifácio de Andrada e Silva Saudai-o agora à margem do caminho

Portuguese poem

Saudai-o agora à margem do caminho

by (1763–1838)

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I

No viço do poder— eil-o tombado Como o cedro do viso da montanha; Bateu-lhe o coração na dor tamanha E o espirito exultou no ceu doirado! Rico de inspirações no vôo ardente Nas azas do prazer viram-no alado, —Inda o mesmo ao morrer— inda mais crente !

Oh não manchou a tunica brilhante No feio tremedal—na apostasia! Não cuspiu a derrota. . . elle sorria Vendo a face do sol no gyro ovante! Não foi dos entes vis, que em praça impura Vendem a alma à fortuna triumphante, E perjuram ao pé da sepultura!

Elle não!—a bandeira immaculada Guardou-a inteira no fervor da fè; Na beira do sepulchro—a mesma—em pé, Santa como ondeou—lá está cravada! Grande no povo, no fulgor da crença, Deixou de chofre a terrenal morada, E banhou-se feliz na luz immensa!

II

O braço que não tremeu Trema agora de terror! Seja ahi que o mundo o ponha, Emblema triste da dòr Na solidão da vergonha!

Lá nas fundas sepulturas Os ossos hão de ranger; Ha de a caveira dizer D’aquelles sombras escuras: —Judas, Judas, não te visto, Vai teus serviços vender, Tu que já vendeste a Christo!

Soldado da liberdade Beijaste humilde a poeira, Não renegaste a bandeira Nas horas da tempestade Viste os braços de uma cruz E ás portas da eternidade Inda avistaste essa luz!

Não foste, pobre mendigo, Catando as flores da estrada Mostrar a mão recheada Pelos campos do inimigo; Fechando o livro da historia, Os puros louros do amigo Altar ao Deus da victoria.

Sentinella no teu posto Tiveste o mesmo logar, —Nos degraus do mesmo altar, —Do mesmo leito no encosto : Hoje conservas no chão A mesma luz no teu rosto, A mesma fé na feição!

No Feio do teu partido Pregador do povo-rei Os mandamentos da lei Soaram no labio ungido! Oh dos tens na lucta immensa Levaste, nobre vencido, O sentir, a idéa, a crença!

III

Morto como viveu—honras não veste, Dorme como nasceu—homem do povo! Ha grandezas ahi... saudai a cruz ! Surge sempre da campa algum renovo, —Do sangue a vida, do supplicio a luz.

Da terrestre prisão, quebrando os laços, Poiso foi procurar na eternidade, Como no turbilhão da tempestade Doideja a aguia perdida nos espaços !... Viu dos livres o sol... viu o clarão Da Providencia além.. . abriu seus braços, Grande n’alma, fiel no coração!

Saudai-o ! da tribuna o heroico vulto Baixou c'roado aos angulos de uma campa; Ao sol grandioso que no mar se estampa 0 Novos preitos rendei, rendei-lhe culto ! Saudai o lidador sobre a poeira... Vingue-se a gloria do terrestre insulto, Cubra-lhe a campa liberal bandeira!