Versos Portuguese José Bonifácio de Andrada e Silva Saudade

Portuguese poem

Saudade

by (1763–1838)

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I

Tinha um anjo de olhos negros, Um anjo puro e innocente, Um anjo que me matava Só c’um olhar—de repente, —Olhar que batia n’alma, Raio de luz transparente!

Quando ella ria, e que riso ? ! Quando chorava,—que pranto ? ! Quando rezava, que prece! E n’essa prece que encanto ! ? Quando soltava os cabellos, Como esparzia quebranto? !

·

Então o sol surgindo feiticeiro, Entre nuvens de cores recamadas, Segredava mysterios!

Como era verde o florejar das veigas Brandinha a viração, murmura a fonte, Meigo o clarão da lua, a estrella amiga Na solidão do Céo! ?

Que sedes de querer, que amor tão sancto, Que crença pura, que ineffaveis gozos, Que venturas sem fim, calcando ousado Humanas impurezas!

Deus sabe—si por ella em sonho extranho Á divagar sem tino em loucos extasis, Sonhei, penei, vivi, morri d’amores ? ! Si um quebro fugitivo de seus olhos Era mais do que a vida em plaga edenica, Mais do que a luz ao cego, o orvalho ás flores, A liberdade ao triste prisioneiro, E a terra da patria ao foragido ! ! ! Mas ai—tudo morreu!...

Seccou-se a relva, a viração calou-se, Os queixumes da fonte emmudeceram, Mórbida a lua só pratêa lousa, A estrella amorteceu, e o sol amigo No verde-negro seio do oceauo Chorando a face esconde!

Meus amores talvez morreram todos Da lua no clarão que eu entendia, N’essa restea do sol que me fallava, Que tantas vezes me aqueceu a fronte !

III

Contente á sombra da noite Resaya a virgem Maria; De noite tinha esquecido Os pensamentos do dia.

Sabia tantas historias Que me não lembra nenhuma ; Os meus prantos apagaram Todas, todas—uma a uma!

IV

As grinaldas de louro murcharam, Nem grinaldas- sómente a loucura! Vi no throno da gloria um cypreste, Junto d'elle uma vil sepultura!

Negros odios, infames traições, E mais tarde... um sudario rasgado ! O futuro?... uma sombra que passa, E depois... e depois... o passado !

Ai maldito esse beijo sentido Esse beijo do meu coração! A ventura—onde vive na terra? Minhas rosas—que fazem no chão?

Por entre o chorão das campas Minhas visões se occultaram ; Meus pobres versos perdidos Todos, todos acabaram; De tantas rosas brilhantes Só folhas seccas ficaram...

S. Paulo 1850.