Portuguese poem
Erguei-lhe um trono!
by José Bonifácio de Andrada e Silva (1763–1838)
I
Eis o negro corsel relincha ovante, Escutando o clarim na metralhada !... Acompanhai-o—que elle está diante, Marca-lhe o rumo a ponta de sua espada.
Vai seu caminho, heróe da liberdade, Audaz guiando a marcial cohorte! Manda o canhão seu nome á eternidade —Da metralha senhor, rival da morte!
Sabem-lhe a vida ardente—essa epopéa, Com sangue escripto ao trom da artilharia, Nas planicies—nos montes—sobre a arêa, Ou nos mares á voz da ventania!
Magestoso, na frente da columna, Tremúla heróica a nacional bandeira ; De seu cavallo á cauda ata a fortuna, Leva no braço a gloria prisioneira.
Roja ancioso pelo solo raso Soldados, generaes, c'rôas e sceptros! Enviado de Deus—filho do acaso Seguem-lhe turbas de milhões de espectros!
Vem dos ferros, do exilio, da prisão, Dos cemiteirios, da masmorra escura, —De Veneza, de Roma, de Milão— Querem na patria ao menos sepultura !
Este é a triste mizeria, aquelle a fome; Este a ambição cahida, aquelle a dòr; Este a saudade que o sepulchro some ; Aquelle a sombra de um perdido amor!
Da independencia o sol—eil-o que gyra Sobre mil combros de poeira e ossos! Que vasto incendio!—em fumegante pyra Vede-o—de pé—sereno—entre destroços!
II
Cuida ver a multidão! Sauda os Grachos altivos, Que nunca forão captivos, Esses rivaes de Catão!
Entre as lembranças divinas Dos gigantes monumentos, Neste solo entre ruinas, Solettrai vossos portentos! Erguei-vos ... tudo se cala! Só a estatua, o marmor falla Na mudez de santa paz! De Horacio Cocles no Tibre —Embora morto, inda livre, Vaga a sombra—e nada mais!
Destas cinzas sobre a louza, Novo Spartaco se ergueu! N’aquella campa repousa Uma nação que morreu!... Hão de ve-la, erguida agora, Rainha, escrava de outr’ora, Quebrar o somno profundo; Não, não hade a tyrannia Curvar a fronte sombria Da vencedora do mundo.
III
Que esteira immensa de luz! Daquella espada na cruz, Que popular realeza!
Respeitai-o !—nas tormentas Vio da America as florestas; Vio as phalanges sedentas De outras glorias como estas; Oh! vio nos bosques cerrados, Nos campos descortinados Do sol as luzes tamanhas; Vio nas azas do condor Alar-se o anjo do amor Na solidão das montanhas!
Lá gaúcho das campinas, Solto o ponche ao furacão, Da liberdade a oração ! Medio a gloria do braço Na virgindade do abraço Do céo, da terra e do mar!... Como erão bellos os montes Nesses largos horisontes Do rubro sol—a brilliar!
Sicilianos, saudai— O heroe das lendas sagradas; Cobri de flores, juncai O frio chão das estradas! A vaga do mar se cala ... Já nas plagas de Marsala Retumbou a artilharia: Que corre, vôa—não cança, Flagello da tyrannia!
A’s armas!—sôa o rebate, Lá está Palermo a tremer,
A’s armas !—neste combate Cumpre vencer ou morrer! Chovão bombas—pouco importa, De tanta grandeza morta Alçai outra vez um throno: Cóllo altivo—a fronte erguida— Que valle no chão a vida, O pesadello no somno ? !
Ha nos campos muita bala Enterrada pelo chão, —Lembranças que a dôr exhala, Saudades de um coração! Ha muito corpo esquecido; Nos supplicios resequido, Ossos já—sem carne apenas : Oh! erguei-vos!—que fazeis? Não—covardes, não sereis... Ha muito pranto nas scenas!
Quem vos guia, viu de perto Do Gaulez a torva enchente Vio o Pó no curso incerto Estremecer de repente: Mas, quando Roma curvou-se, Quando triste debruçou-se A estrella de Scipião ... Sempre o mesmo, igual na fé,— Não quiz ver estranho pé Onde assestára o canhão.
Os brazões do livre escudo— Foi guardal-os no desterro; Do exilio no seio rudo Retemperar seu aferro !. . . Mais tarde—virão-n’o erguido Na refrega encandecido
Festejar da patria o dia... Nos austriacos bastiões Entre o rugir dos canhões, Ao som da fuzilaria.
Hoje alli—a mesma sorte Lhe conduziu o baixel; Soltou as azas á morte, No galope do corcel! Si morrer, na pedra escura Que tapar-lhe a sepultura Abrão-lhe eterna inscripção: —Aqui dorme a Italia inteira, Só tem por leito a poeira, Por travesseiro o canhão!
IV