Versos Portuguese José Bonifácio de Andrada e Silva Calabar

Portuguese poem

Calabar

by (1763–1838)

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Oh não vendeu-se, não!—elle era escravo Do jugo portuguez—quiz a vingança, Abriu sua alma ás ambições de um bravo E em nova escravidão bebeu a esp’rança! Combateu ... pelejou ... entre a batalha Viu essas vidas que no pó se somem; Enrolou-se da patria na mortalha, Ergueu-se—inda era um homem !

Calabar ! Calabar !—foi a mentira Que a maldição cuspiu em tua memoria! Amaste a liberdade ;—era uma lyra De loucos sonhos, d’elevada gloria ! Alma adejando n’este céo brilhante —Sonhaste escravo reviver liberto; Subiste ao largo espaço triumphante, Voaste—era um deserto!

A quem trahiste, heroe? na vil poeira Que juramento te prendia a fé ? Escravo por escravo— essa bandeira Foi de um soldado—lá ficou de pé !... Viu o sol entre as brumas do futuro —Elle que por si só nada podia; Quiz vingar-se tambem,—no sonho escuro Quiz ter tambem seu dia !

O pulso roixo da fatal cadeia Brandio uma arma, pelejou tambem ; Viram-no erguido na refrega feya, —Sombrio vulto que o valor sustem! Respeitai-o—que amou a heroicidade ! Quiz erguer-se tambem do raso chão! Foi delirio talvez—a eternidade Teve no coração!

Oh que o Céo era lindo, e o sol se erguia, Como um incendio nas brasileas terras: Da cimeira da serra a voz rugía, E o som dos ventos nas remotas serras ! Adormeceu...—à noite em funda calma Ouviu ao longe os echos da floresta; Bateu-lhe o coração—triste sua alma Sorriu-se—era uma festa !

Homem—sentiu na carne desnudada O açoite do algoz nodoar-lhe a honra, E o sangue sobre a face envergonhada Mudo escreveu o grito da deshonra! Era escrevo !—deixai-o que combata; Livre nunca elle foi, quer sel-o agora, Como o peixe no mar, a ave na matta, Como no Céo a aurora!

Oh deixai-o morrer I—d'este martyrio Não alceis a calumnia ao gráu da historia!

Que fique a lusa mão em seu delirio —Já que o corpo manchou, manchar a gloria! Respeitemos as cinzas do guerreiro Que no pó sacudira a altiva fronte ! Quem sabe esse mysterio segredeiro Do sol lá no horizonte?!

Não se vendeu ! infamia!.. era um escravo ! Sentiu o stygma vil, horrendo sello; Pulsou-lhe o coração, viu que era um bravo; Quiz despertar do negro pesadello! Tronco sem folhas triste e solitario, Debalde o vento assoberbar tentou ; Das azas do tufão ao sopro vário Estremeceu—tombou!

Paz ao sepulchro! Calabar morreu ! Sobre o tópo da cruz falla a verdade; Quiz ser livre tambem—elle escolheu, Entre duas prisões quiz ter vontade! E a mão heroica que susteve a Hollanda A covardia entrega desarmada !... Vergonha eterna a Providencia manda A’ ingratidão manchada!

Morreu! mas lá no marco derradeiro O coração de amor bateu-lhe ainda! Minha mãi, murmurou. . .era agoureiro Esse queixume de uma dôr infinda! Morreu, o escravo se desfez em pó... Ferros lançai-lhe agora, si o podeis! Vinde tyrannos—ella está bem só, Dictai-lhe agora leis!