Versos Portuguese José Bonifácio de Andrada e Silva Saudades do escravo

Portuguese poem

Saudades do escravo

by (1763–1838)

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Escravo—não, não morri Nos ferros da escravidão; Lá nos palmares vivi, Tenho livre o coração ! Nas faces ensanguentadas Sinto as torturas de cá; D'este corpo desgraçado Meu espirito soltado Não partiu—ficou-me lá !...

N’aquellas quentes areias N’aquella terra de fogo, Onde livre de cadeias Eu corria em desafogo. . . Lá nos confins do horisonte Lá nas planicies. . . nos montes. . . Lá nas alturas do ceo. . .

De sobre a matta florida Esta minh’alma perdida Não veio— só parti eu.

A liberdade que eu tive Por escravo não perdi-a; Minh’alma que lá só vive Tomou-me a face sombria, O zunir de fero açoite Por estas sombras da noite Não chega, não, aos palmares! Lá tenho terras e flores. . . Minha mãe... os meus amores. . . Nuvens e céus. . . os meus lares!

Não perdi-a—que é mentira Qu’eu viva aqui onde estou; A' toda hora suspira Meu coração—p'ra lá vou! Oiço as féras da floresta, Em feia noite como esta Enchendo o ar de pavor! Oiço, oh! oiço entre os meus prantos Além dos mares os cantos Das minhas aves de amor!

Oh nuvem da madrugada, Oh viração do arrebol, Leva meu corpo á morada D'aquella terra do sol! Morto embora nas cadeias Vai poisal-o nas areias D’aquelles plainos d’alem, Onde me chorem gemidos, Pobres ais, prantos sentidos, Na sepultura que tem!

Escravo—não, ainda vivo, Inda espero a morte ali: Sou livre embora captivo, Sou livre, inda não morri! Meu coração bate ainda N’esse bater que não finda; Sou homem—Deus o dirá! D'este corpo desgraçado Meu espirito soltado Não partiu—ficou-me lá!