Versos Portuguese José Bonifácio de Andrada e Silva Olinda

Portuguese poem

Olinda

by (1763–1838)

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Olinda—vives formosa N'estas collinas perdida ; Princeza do mar saudosa Tu sonhas de amor rendida! Vejo-te ahi feiticeira, Talvez pensando agoureira, Nessa já morta grandeza ; Mas em vez de um rico throno N’esse largo e fundo somno Fez um ninho a natureza !

Sobre um tapiz de verdura, India de amor namorada, Tens a vaga que murmura, A teus pés escravisada! Ai no passado a tua gloria, No livro eterno da historia,

Conservou a mão da sorte; Tu revives na lembrança, Como as flores da esperança Sobre a cruz—depois da morte.

Foste rainha—o teu sceptro Estes campos dominou; Mas veio um dia—poisou Nas praias um negro espectro! No leito do captiveiro Entre os braços de um guerreiro Veneno e goso bebeste! Sobre o seio adormecida N’aquelle engano da vida, Dormiste, mas não morreste !

Oh! que riquesa sem fim! Oh que bulicio sem par! Tiveste grandeza assim, —Ouro e prata a deslumbrar! A mão do fado infeliz Ver-te nua um dia quiz Só com tuas penas—mas nada! Como tu és linda agora, Banhando-te á luz da aurora, N’aquella vaga asulada? !

Agora sim como brilha O teu cinto de verdura?! Dos bosques mimosa filha Que viço na face pura! A sombra d’este arvoredo Como se conta um segredo Baixinho—na voz das selvas! Que mysterio lá nos ares! Oh que saudade nos mares! Oh que perfumes nas relvas !

Aqui misturam-se os hymnos Do deserto e da cidade; Aqui das aves nos trinos Sorri-se a meiga saudade! Juncto das trevas a luz Juncto dos troncos a cruz A egreja na solidão; Que importa a morta grandeza, Si aqui tenho a natureza Me fallando ao coração?

Ai que lembrança fugiu-me Para nunca mais voltar; Qual da jangada no mar A vela que alli sorriu-me! Oh India bella e formosa, Que te inclinas graciosa Nas aguas tam sem receio, Eu amo em tarde serena Ver essa face morena Pendida sobre o teu seio!

Sonho entam, vejo passando Algumas sombras na praia! Um vago som murmurando Pelo espaço— além sc espraia ! Do mar que geme as endeixas Da terna aragem as queixas. Entendo—sei decifral-as De entre as palmeiras saudosas Lá das sombras vaporosas Sam os gemidos, as fallas!

Alli nas verdes collinas Alvos templos se a levantam ; Pela varzea peregrinas

Suspirando as aves cantam ! ! Alli n'um extase occulta, Morta a vida, a alma sepulta, Doideja em sonho de amor; Alli, meu Deus, alli só A cruz murmura no pó Falla no vento e na flor !

Eis a esperança que sonha Sobre as espumas do mar; Que vem na vaga risonha Teus pés mimosos beijar! E quando estrellas a mil No firmamento de anil Traz da noite a mão suprema, Então,—oh Nympha das selvas Sobre o teu leito de relvas Encostas o diadema!

Ai infeliz tambem chora, Ajoelhada nos montes, Em quanto nos horisontes Não surge o brilho da aurora! Em baixo a dor, o pesar, O eterno grito do mar Susurra, os échos acórda; Da prece a deusa chorosa Vaga na praia saudosa, Soluça do mar á borda!

Salve, Olinda, entre as rainhas, Rainha da natureza! Trocaste o solio que tinhas Por mais linda realeza! Livre agora do Hollandez, Boto o Sceptro portuguez,

-E’a pobre, mas tens o riso! Se o mar cioso tragar-te Pódem na lousa gravar-te : —Áqui foi o paraíso!

1858.