Portuguese poem
O tropeiro
by José Bonifácio de Andrada e Silva (1763–1838)
I
Toca a—Fidalga—da beira Da serra; Si escorregar, vái-se embora Do barranco de fóra Na terra.
Diabo, que fazes tu, Não vês? Sacode o relho, o chicote, Só andam cinco no lote, Sam seis.
Tinhoso, vira essa cara No andar; Estou vendo a cabeçada Da besta mais carregada No ar.
Olha o cavallo tordilho Parado; Sentido que o lote espalha, Já traz pendida a cangalha Do lado.
Deita, deita o tapa-olhos, Não pares; Aperta mais o arrôcho, Vai o ligai meio frouxo Nos ares.
A ferradura ali está Da mão, Anda, suspende o embornal, Não vês o saco de sal No chão?
Ché que esperança! lá vou, Rapaz; Vou só beber a caninha Ali n’aquella vendinha —Detrás.
Vamos depressa, galopa, Machinho; Em um nadinha lá estou; Tenho as chilenas—lá vou, E volto logo ao caminho.
Tenho o meu ponche, a garrucha, Que mais ? Posso seguir socegado —Que vou correndo o meu fado. Vou com Deus, e vou-me em paz.
II
Descerei esta serra—inda bem !— Volto logo, bem sei que hei de vir.
Ai soltemos o lote primeiro, E na frente que puche a madrinha: Besta velha—com passo ligeiro, Que não levas em vão campainha.
Guia as outras, não percas o rumo, E sentido que alguma não passe; Tenho os pés callejados,—a prumo Cahe o sol,—já tostou-me esta face.
Vou dormir lá por baixo da serra; Tenho o couro, de nada preciso; Descarrego os jacás,—sobre a terra Durmo alegre ao luar—que sorriso!
Bem me entendem as bestas, si fallo; Tem seu nome—qu’eu as baptizei; No assobio, do relho no estalo Si converso com ellas eu sei!
Vou cantando—que o sopro da aragem Traz-me o riso na voz do trabalho; De viola na mão—na viagem Bato o pó na tyranna, si falho.
Vamos, vamos seguindo o caminho —Que eu já tenho saudades da serra; Nasci lá pelos montes sosinho, Quero ver outra vez minha terra;
Minha casa de palha coberta, Minha cerca de páo de pinheiro; Quero ouvir quando a aurora desperta, O meu gallo cantar no poleiro!
III
Alegre e rindo, A vida aceito; Tenho o sincerro Dentro do peito.
Bem pequenino Deixei meu ninho; Fui correr mundo Pelo caminho.
Eis chega a noite, Brilha o luar; Do fogo em roda Vão-se aquentar!
Vamos depressa, Temos cafè ; Depois diremos Quem bate o pé.
Tenho um bentinho, Tenho um rosário; Correm as contas Do meu fadario.
Sãe Paulo—1850.