Versos Portuguese José da Silva Mendes Leal Iii

Portuguese poem

Iii

by (1820–1886)

Listen in the reader

--«Eis-me. Cheguei. Mais fúlgido Meu astro se alevanta: No coração do Tártaro Encosto o ferro e a planta.

Eis-me. O leão da Córsega Emfim vos empolgou, Ó capital das cúpulas, Ó torres de Moskow!

Eu sou o Ajax authentico, A authentica epopéa, Aurora apoz crepusculo, Espada feita idea.

Fadou-me Arcóle e Rívoli Marengo, e Lodi, e as mais; Rompi d'um canto homerico Em dias immortaes.

O mesmo sou, que os seculos, De tanto ousar pasmados, No cimo das pyramides Mostrei aos meus soldados.

Fiz n'essa terra, symbolo De olympicos avós, Estremecer nos tumulos Os velhos Pharaós;

N'essa, ao potente estrépito Do arrojo e das victorias, Cubri co'as palmas ínclitas As maximas memorias;

N'essa, mysterio pávido Onde o passado rue, N'essa, de assombros pródiga, Maior assombro eu fui.

Era Alexandre o prólogo. Tentou-me. Em cem combates Arremessei, seu émulo, O Nilo sobre o Euphrates.

No turbilhão phantástico Dos rapidos corseis, Ardentes vi cercárem-me Os esquadroens dos Beys;

Vi mais--ceára horrifica De alfanges e trabucos!-- Os marciaes Janizaros, Os feros Mamelukos;

E a densa turba innúmera, Ao breve aceno meu, Sombra tornada, súbito Ás sombras se volveu.

No pó de heroicas épochas Ficaram meus vestigios; A par das lendas bíblicas Tracei novos prodigios.

Aos vãos chegou do Libano Meu bellico trovão, E do Thabor aos pincaros, E ás margens do Jordão.

Sobre os dispersos idolos Meus batalhoens marcharam; De feito a feito alçândo-se, Ovantes acamparam

De Thebas entre os pórticos, Em Memphis sem rival... Fêz-se ás gigânteas fabulas A minha historia egual.

E o proseguir esplendido Da triumphal carreira, Quando a meus pés atónita Prostrei a Europa inteira!

Quando, as cohortes férvidas Dispondo a meu sabor, Ao fim de um dia tragico De universal terror,

Em vindo a erguer-se o Véspero, Surgia da metralha Nas mãos trazendo, incólume, Um reino e uma batalha!

Meu curso meteórico Não pára; a lucta é van: Succedem-se fatidicas Iêna, Eylau, Wagram.

Sou vencedor, sou árbitro Aos curvos hemispherios; «Surgi» ordeno, e surgem-me, Quaes os desejo, imperios.

Triumphos e catastrophes, Estados, leis, naçoens, Os fulgurantes prestitos, As bastas legioens,

Confundem-se, ennovellam-se Na cerração turbada D'um cahos, ao relampago Que vibra a minha espada.

Quiz Deus tornar-me o Génesis, Que em breve ha de accender Nos homens novo espirito, Nas eras novo ser.

A evolução recôndita Avança d'hora em hora: Trabalho sobre a íncude A humanidade agora.

O herdeiro dos Apostolos Ungiu-me entre os christãos, E eu mesmo a c'roa altissima Cingi com estas mãos.

Deixei submisso, trémulo Como exorando as Parcas, Aos meus humbraes um séquito De palidos monarchas.

Este diadema unico D'estrellas constellei; Em nova, summa Ilíada Sou já de reis um rei.

E aqui!... aqui rodêam-me, Activos serviçaes, Os meus ministros-principes, Meus duques-marechaes!

Fervem do Sena ao Vistula Os arraiaes em peso, Como nas veias tumidas Um sangue em febre accêso!

Olhae! Conduzo unânimes, Mais fortes cada vez, Germanos, frankos, ítalos, O proprio portuguez;

O portuguez, que intrépido Sabe ir, honrando os lares, Descortinar o incógnito Vencendo terra e mares!

Quem ha-de pois com exito Meus planos impedir? Aos orbes posso o âmbito, Com braços taes medir!...

Moscow, teu solo as máculas D'escravo teve; apague-as: Venci o repto altisono Das aguias contra as aguias.

E tu, rival maritimo, Aqui te enfreio a acção!... Ó Russia, emfim pertences-me! Emfim és meu, Bretão!»