Portuguese poem
Vi
by José da Silva Mendes Leal (1820–1886)
Nisto uma chamma, e outra, e cento, e centos Brotam-lhe em torno, as trevas arraiando; Abrazam-se os minados monumentos; Cresce o mal, cresce o damno, desabando No rubro chão os rotos pavimentos; Negro e espesso vapor, de quando em quando, O espaço tolda, golpha nas verédas. É tudo em pouco um mar de labaredas!
Soprando sobre a ardente cataracta, Rijo aquilão o estrago faz mais breve, E o hynverno boreal, veloz, desata Dos rócheos hombros o lençol de neve. Triumpha a morte; o horror o horror dilata; O espirito a medil-o mal se atreve. Que dôr! Que fim! Que circulo medonho!... Tal foi o despertar qual fôra o sonho!
Inspira patrio amor delirio intenso. Do rude Scytha a barbara energia Faz do seu Capitolio um facho immenso, (Funerea tocha em lugubre agonia!) E brada ao vencedor tôrvo e suspenso: --«Hospede vens: meu braço te allumia!» Pressagio triste ao grande temerario! O incendio, occaso! Os gellos, um sudario!
D'esse lume ao revérbero inimigo Vê-se, na encosta qu'inda o sangue innunda, Descendo, só, quem só contou comsigo; E no extremo fatal (licção profunda!) Como o padrão do Prometheu antigo, Um rochedo surgir, que o mar circumda-- O mar, espelho azul da immensidade, Cantico eterno á eterna liberdade!