Portuguese poem
Conto
by José Daniel Rodrigues da Costa (1757–1832)
Do Sabio por imaginação.
Certo Rapaz de Provincia A Lisboa veio dar, O qual não sabia ler, Nem escrever, nem contar. Para ganhar o sustento Pôz-se a servir hum Letrado, Esperto, prompto, e fiel, Mostrando-se hum bom criado. De tres a tres mezes o Amo Por costume lhe dizia: Esfrega-me essas estantes, Limpa-me essa Livraria. Ajuntou alguns vintens, E a sua patria buscou, Onde se estabeleceo Com fazendas que comprou. Lá na Botica da terra Elle hia as noites passar Com o Cura, e mais pessoas, Que alli vinhão palestrar. N'huma noite huma questão Se moveo co'hum Estudante, Em que elle se foi metter Por atrevido e ignorante. Instava sem reflexão Dizendo: He que me faltava; Se por ter aberto livros Vossa Mercê me encovava. Eu tambem Livros abri, Lidei com discreta gente; Não jugue o senhor novato Que acha em mim algum demente. O estudante, que sabia Que o tal servíra hum Letrado, Querendo-o desmascarar, Lhe respondeo enjoado: Eu sei que livros abrio, Mas diz gente verdadeira, Que abria livros alheios, Para tirar-lhe a poeira Eis como alguns impostores De sabios querem ter fama, Lendo só rostos de Livros, Nada fruto, e tudo rama. Não estudão, nem se canção; Querem que a sabedoria Se pegue, bem como a febre Em tempo de epidemia.
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CONTO EPIGRAMMATICO.
Havia hum homem sagaz, E bastante indagador; Sempre das vidas alhêas Queria ser sabedor. Por conseguir o seu fim Valia-se de mil modos, Louvando, ou dizendo mal Sabia tudo de todos: Com perguntas, e rodeios Botava a rede em cautela: Quem conversava com elle Por força cahia nella. Adoeceo gravemente; E hum Medico foi chamado, Que da lingoa deste enfermo Vivia escandalizado: Receitou-lhe hum vomitorio, Mas com elle não lançou; Repetio segunda dose, Igualmente se frustrou; Até que o Medico disse: Pasmo do caso presente! Não vomitar quem tem feito Vomitar a tanta gente! E pois que o meu vomitorio Nada, ou pouco lhe aproveita, Se quer vomitar, amigo, Use da sua receita.
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