Portuguese poem
Lisboa
by José Daniel Rodrigues da Costa (1757–1832)
Na Officin. Patr. de FRANCISCO LUIZ AMENO.
M. DCC. LXXXI.
Com licença da Real Meza Censoria.
ODE.
Ó Tu do Ethereo Jove Irmaõ potente, Supremo Pai das humidas Deidades, * ... Que manejas terrifico tridente, Que dominas as mesmas tempestades, Tu que todas as gentes senhoreas Na procellosa, nivea, vasta herança, * ... Que os cavallos maritimos enfreias, Distinguindo a tormenta da bonança, Levanta sobre o Pélago profundo A limosa cabeça, e vinga o Mundo.
Sacrílegos Tipheos, que conspirados Sem respeito a coriscos tortuosos Sobre os Orbes voluveis, e sagrados Intentastes alçarvos ambiciosos, Nos raios crepitantes destruidos, Em castigo do cego atrevimento, De pérfidos ingratos, e atrevidos Contra o supremo Deos do Firmamento, Vêde a outros Tipheos; delicto insano! Que empunhaõ armas sobre o largo Oceano.
De Inexoraveis filhos circulada Aligera mulher cega, e robusta, De Mercurio nas Artes educada * ... Ah que tudo extremece, tudo assusta! Dos bens alheios ávidas Arpias, Das cavernas Estygias povoadoras, Tristes imagens só de tyrannias, Dos maiores insultos aggressoras Vaõ atacar na liquida corrente A nadante morada, a inerme gente.
Já as nocturnas aves vaõ pascendo Com os bicos de ferros aguçados; Nos quentes corações satisfazendo Os vís desejos nunca saciados: Aos tristes palpitantes destruidos Calcaõ os pés immundos, e cruentos, De huns resoaõ inda alguns gemidos, Outros de todo já não tem alentos: He tudo confusaõ, tudo agonia, Que encobre a noite, té que chega a dia.
Aos maniatados corpos traspassando Do silencio nocturno a amiga turba, Que se farta no sangue miserando, E o socego do publico perturba, Huns entregaõ o peito ao golpe duro, Sem remedio saõ outros aprehendidos; Huns escolhem o mar por mais seguro, Outros escapaõ sim, mas escondidos; Este cahe, outro expira, aquelle geme, Correm rios de sangue, e tudo treme.
Com este pezo as aguas se incurvaraõ, E Neptuno apôs delle, logo erguendo A lança triplicada, se avistaraõ Em sanguentadas ondas decorrendo; As formosas Nereidas lhe assistiaõ, As crystallinas lagrimas limpando, E os ligeiros Delfins tristes corriaõ, Com mil ordens a Eolo decretando: Os Euros sibilantes quiesceraõ; Boreas, e Aquilões emmudecêraõ.
Torpe, execrando, barbaro, incontrito, Em vaõ, em vaõ procuras asylarte, Pois que a culpa em sagrado he hum delito, Que o sagrado naõ deve perdoarte: Elle te guardará por criminoso, E os mesmos elementos conjurados Faraõ o teu supplicio tormentoso, Por crimes nunca de outros cogitados: Caso de horror, de susto, magoa, e pranto, Que ás mesmas féras causaria espanto!
Oh que incuravel mal! Oh que fadiga Com diligencia insana procurada, Que a homens contra homens volve, e obriga, E que faz a Republica turbada! Grande fome, alta sede do Thesouro, Que motivas o odio, a vil surpreza, Só por fartarte hydropica no ouro, Atropellando as leis da natureza! De immortal fome, ah Tantalo ambicioso, Tanto mais farto, quanto mais sequioso!
Vem ó filha do Ceo, de Themis filha, Que nascendo do Ceo, ao Ceo tornaste, Em cuja maõ direita a espada brilha, E na esquerda equilibrios ensinaste; Dispoem golpes mortaes, golpes sensiveis, Contra os filhos da terra, vís, cruentos, Monstros da tyrannia os mais terriveis, Dignos de alto castigo, altos tormentos; Corta filha de Jove a iniquidade, Tanto delicto, insulto, e crueldade.
Já os ferreos grilhões, grilhões pezados Arrastraõ os crueis insultadores, Já ficaõ comprehendidos, e accusados Do delicto maior, culpas maiores; Confessos, maniatados, e arguidos Gemem, debaixo dos mais justos pezos, A certeza de serem percutidos, O tormento de serem Réos, e prezos, De pagarem as vidas tantos damnos Para maior horror dos deshumanos.
Olhai crueis a sorte do tormento, Que naõ tem proporção com tal insulto, Assim como differe do cruento O justo coração, o mesmo indulto. Ide, ide pagar feios delictos, E ser nos altos póstes presentados; Naõ incautos, sem tempo, inda que afflictos, Com culpa, com favor, e preparados; Vêde, vêde o que póde a alta Piedade, Inda quando castiga a víl maldade.
A maõ mimosa, e Regia, junta ao peito O coração mostrando mais piedoso, Cheio de luz, e cheio de respeito, De hum semblante purissimo, e formoso, Que espalha sobre todos a riqueza, Rios de Graça, mil preciosidades; A maior exemplar de alta grandeza, Que honra o sacro Throno, e as Magestades, He, quem fez castigar o impio roubo, Quem nos fez libertar do voraz lobo.
Venturosa Ulysséa, ergue o rosto, E beija a sacra Maõ, que em nós derrama O socego, a fortuna, a paz, e o gosto, Huma chamma de amor, e outra chamma; Affina, a aurea lyra, e teus louvores Cheguem aos Ceos voluveis, estrellados, Cujo supremo Author lhe dá favores, E por ella nos faz felicitados Por ella, que virtudes mil encerra, Que premeia a virtude, e o vicio aterra.
PROTESTAÇAÕ.
Protesto, que como filho da Santa Igreja Romana, me sujeito aos preceitos da Fé, e da Religiaõ Catholica, e que as palavras Mythologicas desta composiçaõ Poetica saõ ornatos da Poesia, e naõ verdades della.
Defronte da Ermida de Nossa Senhora da Gloria em casa do Author se vendem todas as suas obras.
Neptuno filho de Saturno, Irmaõ de Jove, e Deos dos Mares.
Tipheos, saõ os Gigantes filhos da terra, que pertenderaõ fazer guerra a Jupiter.
Aqui se tomaõ pelos aggressores da culpa nos Dominios de Neptuno.
A ambiçaõ dos Réos.
Avidas Arpias se tomaõ pelos Réos.
Nereidas Ninfas do mar.
Eolo Rei dos ventos.
Euros, Boreas, e Aquilões, saõ os ventos Sul, Norte, e Africo.
Tantalo Rei Frigio, que foi homicida de seu filho, e padece fome, e sede junto dos pomos, e das aguas.
A filha de Themis he Astréa Deosa da Justica.
Filha de Jove he a mesma Astréa filha de Themis.
A piedosa sentença com que a Rainha Nossa Senhora foi servida castigar os aggressores.
A Imagem da Piedade figurada no ternissimo peito da nossa Soberana.
Voraz lobo se entende pelos mesmos aggressores.