Portuguese poem
A flor murcha do altar
I
Está murcha.... Ainda agora — Eu a vi — não era assim. Era linda, era viçosa, Acesa como o rubim. Reinava, como a rainha, Sobre as flores do jardim.
II
Talvez com mais expansão. Mas a virgem teve à pena De pô-la em seu coração.
Entrou no templo a donzela Coberta co'o véu de renda. — Teme que aos olhos dos homens Sua modéstia se ofenda: Como a cortina das aras, Que aos ímpios se não desvenda.
Leva a modéstia na fronte, Leva no peito a oração, Leva seu livro dourado, Leva pura devoção: Leva a rosa, — a linda rosa Nos dedos da breve mão.
Rezou: — e depois ergueu-se, Dirigiu-se ao santuário, Modesta, — qual sua prece, Qual a luz do alampadário: E depôs a linda rosa Ao pé do santo calvário.
III
Os anjos depois vieram, Respiraram sobre a flor. A flor cobrou mais beleza, Mais gala e mais esplendor. Ali ao pé do calvário Deu mais expansivo odor.
Ali parecia aos olhos Crescer, crescer... Mas agora? Agora murcha — tão murcha — Não tem a gala de outrora. — Assim o fumo do teto Cresce, cresce, — e se evapora.
Assim as horas do tempo Correndo, correndo vão. Assim passou inda há pouco O matutino clarão. Assim ontem foste infante, Assim hoje és ancião.
Murcha, murcha! — não expande Jamais seu odor intenso.
Há de secar — feliz dela — Junto à Cruz do Deus imenso. Há de aspirar sobre as aras O cheiro do grato incenso.
Feliz! — seu leito de morte, Sobre as aras, ela tem. A prece que vai ao céu, Sobre ela primeiro vem. A mirra que a Deus incensa, Incensa a ela também.