Portuguese poem
O Apostolo entre as gentes
— Foste ao principio Sacerdote e profeta: Eram nos céus teus cantos uma prece, Na terra um vaticínio. Gonçalves Dias
I
Penetra o riso mofador dos homens, E o molejo do cálido filósofo, Presumido de si, — como a ignorância, Que lhe preside aos erros e aos sofismas. — Nem se queixa: — que é findo o seu martírio, Única herança, que ao nascer lhe coube!
II
Prometendo delicias suavíssimas, Como os olhos da noiva espreguiçados Nas expansivas, rutilas pupilas Do paraninfo, que lhe assiste às bodas Ao mando do Senhor, e à noite e ao toro Lhe profetiza trêfegos amores. Esses sublimes alcantis e cerros, Donde desciam por quebradas trêmulas, Lambendo os troncos de copudos cedros, Beijando as hástias de mimosas flores, Entre os convulsos sílices de gemas, De mel e leite os trépidos arroios.
Oh Palestina, oh virgem dos mistérios! Quem assentado em teus alpestres píncaros, Sentindo o vendaval soprar-lhe a grenha, E o cedro secular rompendo as nuvens, Como um gigante, — e ao sopé dos montes O rio a murmurar, como a donzela Junto do amante a desfazer-se em queixas, E ao longe a voz dos vagalhões bramindo Horrenda mais que a confusão do inferno, — Quem poderá deixar de ser poeta Ao menos uma vez, — oh pátria de anjos, Oh Palestina, oh virgem dos mistérios!
Ali foi educado, entre as palmeiras E o cedro e o murmurar do regato e as penhas E o rugido dos mares e as procelas, — O gênio entusiástico do apostolo. Ele entre as tribos assomou severo Ás portas de Sion, co'a voz constante, Como o rugido do leão das selvas. Vinha vestido de sinistro saco, E predizia a vinda do Homem-santo, Do máximo dos vates: — mas as tribos, As ímpias tribos, e os rabis fanáticos Escarneceram do pregão do apostolo, Escarneceram do poder do Eterno.
IV
Em derredor o viajor parava, Fixava nele os curiosos olhos, E tremia de ouvir-lhe a voz profética. E em torno à fronte lhe brilhava um disco De fogo mais que santo, — como alquando Moisés descendo do Sinai co'as taboas. Mas os homens alfim o escarneceram, Escarneceram do pregão do apostolo, Escarneceram do poder do Eterno.
V
Hoje, porém, ele não mais assoma Severo e forte às portas da cidade, Como o bramido do leão das selvas. Não mais remonta aos coruchéus altivos Das colunas do Egito hieroglífico, Co'o disco em torno do semblante aceso. Não mais asila-se ao deserto e às lapas, Não foge Roma, — a dona dos triunfos, Roma, — a senhora das nações da terra. Mas os filhos dos homens o escarnecem, Inda escarnecem do pregão do apostolo, Inda escarnecem do poder do Eterno.
VII
E o peito imenso do tupi guerreiro, Nos olhos e no peito de seus filhos Estanque e frio e gélido volveu-se? Bárbaros eram.— Mas em ranchos longos, Nos tejupás pendido das imbiras Desamparando o vibrador tacape, E meneando os colos enlaçados Das correntes das perolas do rio, E assoberbando as pequeninas testas Co'o variegado canitar nutante, E cingindo ao redor do esbelto corpo As multicores lindas arasoias, Das araras à púrpura roubadas, — Demandavam as ocas tenebrosas Dos severos e ascéticos piagas. E os consultavam nas empresas árduas, E decoravam seus oráculos santos, E decantavam seus poemas místicos, Como o primeiro beijo da donzela Dado furtivo entre o amor e o pejo Nos lábios caldos do donzel, que a vida Expandir-se-lhe sente em moles pulsos. — Oh! que não somos os briosos tapes, Filhos da virgem da guerreira América!
Era o supremo Deus onipotente Tupá — o sábio autor da linda lua, Do sol vermelho e das montanhas de ouro E dos búzios marinhos, e dos cardos
Que o viajor nos areais saciam, E do azulado beija-flor das veigas Que trebelha brincão entre os arbustos, Como os desejos sôfregos do amante.
Que tinha? — Deus é Deus! — vozes não mudam O ser do Eterno — idêntico, — imutável, Nos planetas do céu — se mundos forem — Ou só na terra, se ela é só no imenso. Jeová, que expedia o arcanjo etéreo Em vante dos exércitos hebraicos Co'o facho aceso em fogo inextinguível: Brahma, que transmitiu a luz celeste, E o puro espírito e a energia e a forma, De que é principio, — aos fabulosos índios: Teos, que deu aos gregos mitológicos Um vasto olimpo arcado de miríadas De lindos deuses, — símbolos dos gostos: Tupá, que engendra no infinito espaço O trovão co'os bulcões vertiginosos E os chuveiros de pedra e o raio e a morte: — Tudo é Deus, tudo é Deus! — o mais sem nomes.
VIII
assentado Na trípode tremente, auspícios canta. O piaga de Tupá, severo e casto, Nas ocas tece os versos dos oráculos. E o sacerdote do Senhor, — sozinho, — Coberto de baldões a par do réprobo, Ante o mundo ao martírio o colo curva, E aos céus cantando um hino sacrossanto, Como as notas finais do órgão do templo, Confessa a Deus; e — confessando — morre.