Portuguese poem
O Incenso do altar
I
Fugiram já, — fugiram Dos sacros penetrais: Qual foge de repente, Da mente dos mortais, Do mal a triste idéia Com a dos bens reais.
Purificou-se o éter: Espectros mais não há. Sobre eles cai a campa, E um oco baque dá. Sumiram-se no abismo: Deus não nos ouve já.
II
As notas, que produzem Do organista as mãos? As notas, que percorrem Do templo pelos vãos?
Nem das nuvens de incenso O quente recender? Que vão nas mãos das auras, No teto esvaecer? — Ímpio! tu não tens alma, Ou não na queres ter?
Vê como sobe o incenso, Quais globos de um bulcão. Vê como cresce a reza, Quais lavas de um vulcão. Vê como encanta a orquestra, Qual voz de um furacão.
Vê tanto entusiasmo Na face desses crentes. Vê tanta confiança Em almas tão tementes. Vê tanta fé em Deus, — No Deus que não consentes!
Se não te mente, oh ímpio, Esse sistema teu: Se não
é como o riso De ambíguo fariseu: Como o falar do hipócrita, Que também é ateu:
Que inferno de torturas A mente não te côa! Ao doce som do órgão, Que pelos vãos reboa! Aos cânticos sagrados, Que o povo e o coro entoa!
Ás preces do ministro, Que ao Cristo, por ti, ora! Á face desse templo, Que os lábios te descora! Que ao Deus, — que negas, ímpio, — E louva e reza e adora!
Compunge-te — e conhece De Deus a justa mão. Vem comungar do cálix Dos gozos do cristão; Que sentirás arroubos, Que terás alma então!
Vê como sobe o incenso, Quais globos de um bulcão!
E pelo teto rompe, Quais lavas de um vulcão! E aos céus leva a fragrância, — Veloz, qual um pegão!
Vê como sobe o incenso, Que aromatiza o altar: Suave, — qual a brisa Entre o fervor do mar: Suave, —qual dos anjos O doce respirar.
III