Portuguese poem
O Remorso da Innocente
Alma de serafim, prenda do Eterno, Ai! quem te despenhou do céu à terra?
I
Não sabe o nome dos crimes, Ás paixões não dobra o dorso; Mas naquele peito ingênuo Mora inquieto um remorso!
Como relíquias sagradas. Conserva os primores seus; Mas doe-lhe não ser ainda Toda, toda — só de Deus.
II
Beijou a laje da campa, — Da campa, que há de ser dela, E vai cismar merencória Na gelosia da cela.
— Por simpleza arreceando Que algum fantasma não venha, A correr, aos ares dava Suas vestes de estamenha.
Que as trevas do claustro e as tumbas Bafejam tremor sagrado;
E as virgens sempre imaginam Erguer-se um morto a seu lado.
III
não tenha Um crime, sem eu saber! Qual será? — Ontem de noite Eu não pude adormecer! —
E cismava: — Ai! que eu não seja Menos linda ao meu Senhor! Já hoje eu corri do claustro: Dos mortos tive temor...—
E cismava: — Ai! que eu não seja Ré de um crime que eu não sei, Bem como o inseto escondido Na rosa que ontem cortei! —
Ei-la, a cisma da donzela, Da filha da solidão; Ei-lo, o remorso que esconde Nas dobras do coração.
IV
Mas o remorso da virgem Lhe cala na consciência, Como a placidez do justo, Como a visão da inocência.