Portuguese poem
Meditação
Gosto de meditar de noite, às vezes, Como um infante, Espasmado no olhar, fitando o corpo, Que tem diante.
Gosto de meditar de dia, às vezes, Como o ancião, A quem idéias se erguem do passado Em borbulhão.
O infante, o ancião!—os dois extremos Da existência; Um à vida, outro à morte, iguais amostram Igual tendência.
Este é planta mimosa, delicada, Esperançosa: Aquel'outro hasteada e quase murcha, Colhida rosa.
Este promete e cheiro e viço e ramas. Flores ao cento; Aquel’outro esgalhar espera as folhas A certo vento.
E muitas vezes o sol cresta a plantinha, Denuda e mata: E vinga a planta antiga, — e quase morta Revive intacta.
O velho então é como o infante estúpido, Que nasce agora: Magina mil visões: sem causa ri-se, Sem causa chora.
Se fui infante estúpido e pasmado, Adulto louco: Se hei de ser velho, sem sentir, sem alma, Daqui a pouco.
Antes quisera ser infante, — quase Sem sensações: Não tora ao menos cônscio de remorsos, Nem decepções.
Fosse por toda a vida infante néscio, Sem consciência: Morresse alfim apenas circunscrito Em minha essência.
II
Por que e para que rompeu meu corpo Do embrião? Que melhor que não fora me abafasse A compressão?
Fora melhor. E o olho vil do hipócrita Não me veria: Franzindo-me o nariz atrás das costas, Não se riria.
Fora melhor. E a seiva de amargores Não me coara, E a precoce da estação das dores inda Não me chegara.
Fora melhor. E o estigma da tristeza Não me selara. Melancólica ronha os rins sensíveis Não mos gastara.
O coração não fora um grosso livro De negras laudas. Não me açoitara a hidra dos remorsos Co'as férreas caudas.
Não me fora sem flores a existência Contínuo inverno. Não me fora este mundo um campo estéril, Páramo eterno.
Onde só nascem, crescem e vicejam Males sem conto. Donde se ceifa antecipado pranto, Enojo pronto.
Porque e para que rompeu meu corpo Do embrião? Pela miséria, e para a morte interna Do coração!
E o Deus, que tem por escabelo nuvens De ouro e marfim, De ofendido, parece deslembrado, — Triste! — de mim!
Deus! para que tiraste-me do imo Do embrião? P'ra vida de minha alma, — ou para a morte Do coração?
Oh! morra o coração, — gérmen fecundo De mil tormentos. Desfaleçam-lhe as fibras, — espedacem-se Os filamentos.
Isenta de paixões, — de amor, ou ódio, Surja a razão. Não obedeça escrava aos sentimentos Do coração.
Torne-se o coração lâmpada extinta, Cinza no lar. E deixe que a razão veleje livre Em largo mar.
Creia num Deus, — e dos dulçores goze De almo ascetismo. Não mais lhe roa as vísceras o cancro Do cepticismo.
A dúvida infernal, batendo as azas, Perdendo as cores, Precipite-se súbito nas chamas Exteriores.
Sepulte-se a descrença em negras trevas De negro inferno. Creia a razão convicta nas justiças Do Deus eterno.
Sim: o viburno pequenino, humilde No prado agreste, Vegeta ao pé da realeza enfática De alto cipreste.
E Deus, que vivifica o alvar pinheiro E a tenra planta: Que os soberbos calcina, e que os humildes Do pó levanta:
De minha vil baixeza, como os homens, Ah! — não se peja; Que ele mão cheia de mil dons em todos Largo despeja.
Mas se ‘té 'qui parece deslembrado, Triste! — de mim: Se não manda aguardar minh'alma dúbia Um querubim:
Se nunca se lembrar que um ente existe Nessa amargura, Melhor não fora me gelasse o sangue A morte dura?
Em sala, onde mil luzes por mil lâmpadas Reparte o gás, Delas a mais pequena que se apague Que mal que faz?
IV
Jubilosas menções, palmas soantes Rompem, murmuram. Melíflua orquestra, tímpanos sonoros A dor lhes curam.
Os vates das paixões enamorados, Como possessos, Trovam, filtrando em todos o requinte De seus acessos.
Fugazes fadas no ademã fantástico Cisnes gorjeiam. Depois, prendendo-se a audição aos cantos, Todos pranteiam.
Arrebatam-se as almas, — magnetizam-se Os sentimentos. Mudam de sua ação inda os mais frigidos Temperamentos.
Letargia fatal! — ao outro dia Calmos acordam. E, sonâmbulos quase, — aéreas formas Só lhes recordam.
A miséria da vida se lhes mostra Então real. Catam novos prazeres: nem um deles De mais lhes val'.
Qual rápido relâmpago no espaço Sói discorrer, Tal, sem deixar pegadas de seu vôo, Foge o prazer.
V
Sorri também.—Este sorriso estrídulo, Oh ente vil, Por dá-lo mesmo assim fazes, empregas Esforços mil!
Sorri também: e seu sorriso — escárnio — Da natureza. Seu sorriso — um prelúdio concebido De malvadeza.
Quanta vez viração tépida e fresca Serena os ares, E procela depois revolta horrenda Terras e mares!
Quanta vez mil delícias lá desmancha Vaivém da sorte! Quanta vez o prazer da vida incauta Precede à morte!
Assim sorri o hipócrita um sorriso De fúria má. Mentiras, manhas ímpias seu demônio Grato lhe dá.
Hipócrita, que pisas o palácio E a palhoça e a cela, Deixa de teus furores esquecida Uma parcela.
Não me toques na orla dos vestidos Co'a férrea mão: Deixa-me entregue na soidão da noite Á reflexão.