Portuguese poem
Ja não posso ser contente
MOTE ALHEIO.
Ja não posso ser contente, Tenho a esperança perdida; Ando perdido entre a gente, Nem morro, nem tenho vida.
Glosa.
Depois que meu cruel Fado Destruio huma esperança, Em que me vi levantado, No mal fiquei sem mudança, E do bem desesperado. O coração, que isto sente, Á sua dor não resiste, Porque vê mui claramente Que pois nasci para triste, Ja não posso ser contente. Por isso, contentamentos, Fugi de quem vos despreza: Ja fiz outros fundamentos, Ja fiz senhora a tristeza De todos meus pensamentos. O menos que lh'entreguei, Foi esta cansada vida: Cuido que nisto acertei, Porque de quanto esperei Tenho a esperança perdida.
Acabar de me perder Fôra ja muito melhor; Tivera fim esta dor, Que não podendo mor ser, Cada vez a sinto mor. De vós desejo esconder-me, E de mi principalmente, Onde ninguem possa ver-me; Que pois me ganho em perder-me, Ando perdido entre a gente. Gostos de mudanças cheios, Não me busqueis, não vos quero: Tenho-vos por tão alheios, Que do bem que não espero, Inda me ficão receios. Em pena tão sem medida, Em tormento tão esquivo Que morra, ninguem duvida; Mas eu se morro, ou se vivo, Nem morro, nem tenho vida.