Portuguese poem
Álvares d'Azevedo
Morrer, de vida transbordando ainda, Como uma flor que ardente calma abrasa! Águia sublime das canções eternas: Quem no teu vôo espedaçou-te a asa?
Quem nessa fronte que animava o gênio, A rosa desfolhou da vida tua? Onde o teu vulto gigantesco? Apenas Resta uma ossada solitária e nua!
E contudo essa vida era abundante! E as esperanças e ilusões tão belas! E no porvir te preparava a pátria Da glória as palmas e gentis capelas!
Sim, um sol de fecunda inteligência Sobre essa fronte pálida brilhava, Que à face deste século de indústria Tantos raios ardentes derramava!
E pôde a morte destruir-te a vida! E dar à tumba a tua fronte ardente! Pobre moço! saudaste a estrela d’alva, E o sol não viste a refulgir no Oriente!
Morrer, de vida transbordando ainda, Como uma flor que ardente calma abrasa! Águia sublime das canções eternas: Quem no teu vôo espedaçou-te a asa?
Voltaste à terra só — Não morrem Byrons, Nem finda o homem na friez da campa! Homem, tua alma aos pés de Deus fulgura, Teu nome, poeta, no porvir se estampa!
Não morreste! estalou a fibra apenas Que a alma à vida de ilusões prendia! Acordaste de um negro pesadelo, E saudaste o sol do eterno dia!
Mas cá fica no altar do pensamento Teu nome como um ídolo pomposo, Que a fama com o turíbulo dos tempos Perfuma de um incenso vaporoso!
E ao ramalhete das brasílias glórias, Mais uma flor angélica se enlaça, Que a brisa ardente do porvir passando Trêmula beija e a murmurar abraça!
Byron da nossa terra, dorme embora Envolto no teu fúnebre sudário, Murmure embora o vento dos sepulcros Junto do teu sombrio santuário.
Resta-te a c’roa santa de poeta, E a mirra ardente da oração saudosa, E pelas noites calmas do silêncio Os séculos da lua vaporosa!
Ela te chora, e ali com ela a pátria, Pobre órfã de teus cânticos divinos, E das brisas na voz misteriosa, Da saudade e da dor sagram-te os hinos!
Dorme junto de Chatterton, de Byron, Frontes sublimes, pra sonhar criadas, Almas puras de amor e sentimento, Harpas santas, por anjos afinadas!
Dorme na tua fria sepultura Guarda essa fronte vaporosa, ardente, Tu, que apenas saudaste a estrela-d'alva E o sol não viste a refulgir no Oriente!