Versos Portuguese Machado de Assis A Visão De Jaciuca

Portuguese poem

A Visão De Jaciuca

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Prestes de novo a batalhar, chegavam Os valentes guerreiros. Mas onde elle, O duro chefe da indomavel tribu, O senhor das montanhas? Affirmava Tatupeba que o vira, antes da aurora, Erguer-se, e ao longo do visinho rio, Por algum tempo caminhar calado, Como se o abafára um pensamento E lhe impedíra o somno. Vão receio De batalhar? Oh! não! Quasi na infancia, A torva catadura viu da guerra, Officio de homens, que aprendeu brincando Com seu pae, extremado entre os guerreiros, E na bravura e na prudencia; a frecha Ninguem soubera menear como elle, Nem mais veloz nem mais certeira nunca.

A lentos passos caminhando chega, Enfim, o bravo Jaciuca. Torvo E mereneorio traz o duro aspecto. «--Vamos (diz elle) a descansar na taba, Entre festas e dansas; penduremos As armas nossas, que sobeja ha sido A gloria, e a doce paz nos chama.» Leve, Surdo rumor entre os guerreiros soa; Vai subindo, é rugido, é já tumulto, Como o grunhir de tajassús no matto, Que se approxima e cresce. Jaciuca Olhos quietos pelo campo estende; Seu feio rosto é como a rocha dura Que o raio quebra, mas não lasca o vento. Fecha os labios e pensativo espera.

Tatupeba, que a raiva a custo esconde, Ergue-se então; crava-lhe os fulvos olhos, Como a afiada ponta de uma frecha. Seu porte, entre os irmãos, semelha á vista Jequitibá robusto; mais que todos, Terror inspira e universal respeito. Ergue-se e fala:--«Longos soes hei visto, Pelejei muitas guerras; a meu lado Vi cair mais valentes do que folhas Arranca o furacão; mas nunca o animo Dos lidadores abalou a palavra Como essa tua; nunca os braços nossos Ficar deixaram nos desertos campos Os ossos não vingados dos guerreiros. Que genio mau te insinuou tal crime?»

Assim fallando, Tatupeba o solo Com a planta feriu. Os olhos todos Pendem da boca do sombrio chefe. Silencioso Jaciuca ouvira As fallas do guerreiro; silencioso E quieto ficou. Após instantes, A fronte sacudiu, como expellindo Ideias más que o cerebro lhe turvam, E a voz lhe rompe do intimo do peito.

«Ó guerreiros (diz elle), aqui deitados Estivestes a noite, e toda inteira A dormistes de certo; eu, não distante, Do rio á margem a trabalhar commigo, Afiava na mente atra vingança; Até que os frouxos membros descaíram Sobre a macia relva, e um tempo largo Assim fiquei entre vigilia e somno. Viam meus olhos ondular as aguas, Mas no alheado pensamento os ecos Sussurravam da infancia. Um genio amigo Aos tempos me levava em que no rosto De meu pae aprendi, com frio pasmo, A rara intrepidez, válida herança, Que tanto custa ao perfido inimigo.»

«De repente, uma luz pallida e triste Inunda o campo: transparente nevoa E luminosa aquillo parecia, Ou baço reflectir da branca lua Que nuvens cobrem. Livido e curvado, Içayba a meus olhos apparece. Vi-o qual era antes da fria morte; Só a expressão do rosto lhe mudára; Energicas não tinha, mas serenas As feições. «Vem comigo!» Assim me falla O extincto bravo; e, subito estreitando Ao peito o corpo do saudoso amigo, Juntos voámos á região das nuvens. «Olha!» disse Içayba, e o braço alonga Para a terra. Ó guerreiros! largo espaço Era prêsa de alheio senhorio. Fitei os olhos mais; e pouco a pouco, Como enche o rio e todo o campo alaga, Umas gentes extranhas se estendiam De sertão em sertão. Presas do fogo As mattas vi, abrigo do guerreiro, E ao torvo incendio e ás invasões da morte Vi as tribus fugir, ceder a custo, Com lagrimas alguns, todos com sangue, A virgem terra ao barbaro inimigo. Mau vento os trouxe de remota praia Aquelles homens novos, jamais vistos De guerreiro ancião, a quem não coube Sequer a gloria de morrer contente E todo reviver na ousada prole. Era o termo da vida que chegára Ao povo de Tupan! Grito de morte Unico enchia os ares,--um suspiro De tristeza e terror, que reboava Pelos recessos da floresta antiga E talvez ameigava o peito ás feras... Surdos os manitós deixado haviam Os seus fortes heroes; surdos se foram Entre os genios folgar da raça nova, E rir talvez das lagrimas choradas Pelos olhos das virgens... Oh! se ao menos Fora pranto de livres! Era a morte A menor das angustias; vi curvada E captiva rojar no po da terra A fronte do guerreiro, agora altiva, Livre, como o condor que frecha as nuvens; Não kanitar a cinge, mas vergonha, Melancholico adorno do vencido.

O rosto desviei do extranho quadro. «Olha!» repete o pallido Içayba. Olhei de novo, e na saudosa taba, Que os nossos arcos defender souberam, Em vez da sombra do piaga santo, Que, ao som do maracá, colhia as vozes Do pensamento eterno, e as infundia No seio do guerreiro, como o fumo Do petum lhe dobrava impeto e força, Um vulto descobri de vestes negras, Nua quasi a cabeça, e cor de espuma Alguns cabellos raros. Tinha o rosto Alvo e quieto. Em suas mãos sustinha Extenso lenho com dois curtos braços. Ia só; todo o campo era deserto. Nem um guerreiro! um arco!«--A tribu?» --«Extinta!»

«A tal palavra, uma pesada sombra A vista me apagou, e pela face Senti rolar a lagrima primeira. O sinistro espectaculo mudára. Ao dissipar-se a nuvem de meus olhos Achei-me junto do visinho rio, Reclinado como antes, e defronte A pallida figura de Içayba. «--Torna á taba, me disse o extincto moço; «Luas e luas volverão no espaço «Antes da morte, mas a morte é certa, «E terrivel será. Nação bem outra, «Sobre as ruinas da valente raça «Virá sentar-se, e brilhará na terra «Gloriosa e rica. Uma chorada lagrima, «Talvez, talvez, no meio de triunphos «Ha de ser a tardia, escassa paga «Da morte nossa. Poupa ao menos essa «Derradeira esperança de guardal-o «Todo o valor para o supremo dia «E com honra ceder a extranhas hostes; «Salva ao menos as ultimas reliquias «Desta nação vencida; não se rasguem «Peitos que irmãos ao mesmo sol nasceram «E Anhangá fez contrarios... Todos elles «Poucos serão para a tremenda luta, «Mas de sobra hão de ser para choral-a.»

«Assim fallára o pallido Içayba; Alguns instantes contemplou meu rosto, Calado e firme. A cachoeira ao longe Interrompia apenas o silencio; E eu morto, eu mesmo me sentia morto. Elle um triste suspiro magoado Soltou do peito; os apagados olhos Ás estrellas ergueu, sereno e triste, E de novo rompendo o voo aos ares, Como uma frecha penetrou nas nuvens.»