Versos Portuguese Machado de Assis Uma Creatura

Portuguese poem

Uma Creatura

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Sei de uma creatura antiga e formidavel, Que a si mesma devora os membros e as entranhas Com a sofreguidão da fome insaciavel.

Habita juntamente os valles e as montanhas; E no mar, que se rasga, á maneira de abysmo, Espreguiça-se toda em convulsões extranhas.

Traz impresso na fronte o obscuro despotismo; Cada olhar que despede, acerbo e mavioso, Parece uma expansão de amor e de egoísmo.

Friamente contempla o desespero e o gozo, Gosta do colibri, como gosta do verme, E cinge ao coração o bello e o monstruoso.

Para ella o chacal é, como a rola, inerme; E caminha na terra imperturbavel, como Pelo vasto areal um vasto paquyderme.

Na arvore que rebenta o seu primeiro gomo Vem a folha, que lento e lento se desdobra, Depois a flôr, depois o suspirado pomo.

Pois essa criatura está em toda a obra: Cresta o seio da flôr e corrompe-lhe o fructo; E é nesse destruir que as suas forças dobra.

Ama de igual amor o polluto e o impolluto; Começa e recomeça uma perpetua lida, E sorrindo obedece ao divino estatuto. Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.

A ARTHUR DE OLIVEIRA, Enfermo

Sabes tu de um poeta enorme Que andar não usa No chão, e cuja estranha musa, Que nunca dorme,

Calça o pé, melindroso e leve, Como uma pluma, De folha e flôr, de sol e neve, Crystal e espuma;

E mergulha, como Leandro, A fórma rara No Pó, no Sena, em Guanabara E no Scamandro;

Ouve a Tupan e escuta a Momo, Sem controversia, E tanto ama o trabalho, como Adora a inercia;

Ora do fuste, ora da ogiva, Sair parece; Ora o Deus do occidente esquece Pelo deus Siva;

Gosta do estrepito infinito, Gosta das longas Solidões em que se ouve o grito Das arapongas;

E, se ama o lepido besouro, Que zumbe, zumbe, E a mariposa que succumbe Na flamma de ouro,

Vagalumes e borboletas, Da côr da chamma, Roxas, brancas, rajadas, pretas, Não menos ama

Os hippopotamos tranquillos, E os elephantes, E mais os bufalos nadantes E os crocodilos,

Como as girafas e as pantheras, Onças, condores, Toda a casta de bestas feras E voadores.

Se não sabes quem elle seja Trepa de um salto, Azul acima, onde mais alto A aguia negreja;

Onde morre o clamor iniquo Dos violentos, Onde não chega o riso obliquo Dos fraudulentos;

Então, olha de cima posto Para o oceano, Verás n'um longo rosto humano Teu proprio rosto.

E has de rir, não do riso antigo, Potente e largo, Riso de eterno moço amigo, Mas de outro amargo,

Como o riso de um deus enfermo Que se aborrece Da divindade, e que apetece Tambem um termo...