Versos Portuguese Machado de Assis V

Portuguese poem

V

by

Listen in the reader

Mudos viam correr aquellas horas Da noite, os dous: ele voltando o rosto Ao passado, ella os olhos ao futuro. Cansam-lhe enfim ao pensamento as azas De ir voando, atravez da espessa treva, Frouxas as colhe, e desce ao campo exiguo Da realidade. A delicada virgem Primeiro volve a si; os lindos dedos Corre-lhe ao longo da nevada barba, E: «--Pae amigo, que pensar vos leva Tão longe a alma?» Estremecendo o velho. «--Curiosa!--lhe disse,--o pensamento E como as aves passageiras: voa A buscar melhor clima.--Opposto rumo Ias tu, alma em flôr, aberta apenas, Tão longe ainda do calor da sesta, Tão remota da noite... Uma esperança Te sorria talvez? Talvez, quem sabe, Uns namorados olhos que me roubem, Que te levem... Não córes, filha minha! Esquecimento, não; lembrança ao menos Ficar-te-ha do paterno affecto; e um dia, Quando eu na terra descansar meus ossos, Haverás doce balsamo no seio Da affeição juvenil... Sim; não te accuso; Ama: é a lei da natureza, eterna! Ama: um homem será da nossa raça...»