Versos Portuguese Machado de Assis V

Portuguese poem

V

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Longo tempo correra. Amplo silencio Reinou entre ambos. Do tamoyo a fronte Pouco a pouco despira o torvo aspecto. Ao trabalhado espirito, revolto De mil sinistros pensamentos, volve Benigna calma. Tal de um rio engrossa O volume extensissimo das aguas Que vão enchendo de pavor os ecos, Vencendo no arruido o vento e o raio, E pouco a pouco atenuando as vozes, Adelgaçando as ondas, tornam mansas Ao primitivo leito. Ei-lo se inclina, Para tomar nos braços a formosa Por cujo amor incendiara a aldêa Daquellas gentes pallidas de Europa. Sente-lhe a moça as mãos, e erguendo o rosto, O rosto inda de lagrimas molhado, Do coração estas palavras solta: «--Lá entre os meus, suave e amiga morte, Ah! porque me não deste? Houvera ao menos Quem escutasse de meus labios frios A prece derradeira; e a santa benção Levaria minha alma aos pés do Eterno... Não, não te peço a vida; é tua, extingue-a; Um só allivio imploro. Não receies Embeber no meu sangue a ervada setta; Mata-me, sim; mas leva-me onde eu possa Ter em sagrado leito o ultimo somno!» Disse, e fitando no indio avidos olhos, Esperou. Anagê sacode a fronte, Como se lhe pesara ideia triste; Crava os olhos no chão; lentas lhe saem Estas vozes do peito. «Oh! nunca os padres Pisado houvessem estas plagas virgens! Nunca de um deus estranho as leis ignotas Viessem perturbar as tribos, como Perturba o vento as aguas! Rosto a rosto Os guerreiros pelejam: matam, morrem. Ante o fulgor das armas inimigas Não descora o tamoyo. Assaz lhe pulsa Valor nativo e raro em peito livre. Armas, deu-lh'as Tupan novas e eternas Nestas mattas vastissimas. De sangue Extranhos rios hão de, ao mar correndo, Tristes novas levar á patria delles, Primeiro que o tamoyo a frente incline Aos inimigos peitos. Outra força, Outra e maior nos move a guerra crua; São elles, são os padres. Esses mostram Cheia de riso a boca e o mel nas vozes, Sereno o rosto e as brancas mãos inermes; Ordens não trazem de cacique alheio, Tudo nos levam, tudo. Uma por uma As filhas de Tupan correm trás elles, Com ellas os guerreiros, e com todos A nossa antiga fé. Vem perto o dia Em que, na imensidão destes desertos, Ha de ao frio luar das longas noites O pagé suspirar sozinho e triste Sem povo nem Tupan!»