Versos Portuguese Machado de Assis V

Portuguese poem

V

by

Listen in the reader

Mas o tropel de fóra avulta e cresce E os tres accorda. A virgem, lentamente, Rosto inclinado ao chão, transpõe o espaço Que dos dous a separa... O tenro collo Curva ante o pae, e na enrugada dextra O osculo imprime, herdada usança antiga De filial respeito. As mãos lhe toma Enternecido o velho; olhos com olhos Alguns instantes rapidos ficaram, Até que elle, voltando o rosto ao moço: «--Perdoai,--disse,--se o paterno affecto Me atou a lingua. Vacillar é justo Quando á pobre ruina a flôr lhe pedem Que unica lhe nasceu,--unica adorna A aridez melancholica do extremo, Pallido sol... Não protesteis! Roubal-a, Arrancal-a aos meus ultimos instantes, Não o fareis de certo. Pouco importa Dês que a metade lhe levaes da vida, Dês que seu coração, comvosco parte Affeições minhas.--Ao demais, o sangue Que lhe corre nas veias, condemnado, Nuno, será dos vossos...» Longo e frio Olhar estas palavras acompanha, Como a arrancar-lhe o pensamento interno. A donzella estremece. Nuno o alento Recobra e falla: «Puro sangue é elle, Se lhe corre nas veias. Tão mimosa, Candida creatura, alma tão casta, Inda nascida entre os incréos da Arabia, Deus a votara á conversão e á vida Dos eleitos do céu. Aguas sagradas Que a lavaram no berço, já nas veias O sangue velho e impuro lhe trocaram Pelo sangue de Christo...»