Portuguese poem
V
Agora a dansa, agora alegres vinhos, Trez dias ha que de inimigos povos Esquecidos os trazem. Sobre um tronco Sentado o chefe, carregado o rosto, Inquieto o olhar, o gesto pensativo, Como alheio ao prazer, de quando em quando Á multidão dos seus a vista alonga, E um rugido no peito lhe murmura. Quem a fronte enrugara do guerreiro? Inimigo não foi, que o medo nunca O sangue lhe esfriou, nem vão receio Da batalha futura o desenlace Lhe fez incerto. Intrepidos como elle Poucos vira este céu. Seu forte braço, Quando vibra o tacape nas pelejas, De rasgados cadaveres o campo Inteiro alastra, e ao peito do inimigo, Como um grito de morte a voz lhe soa. Nem só nas gentes o terror infunde; É fama que em seus olhos cor da noite, Inda creança, um genio lhe deixara Mysteriosa luz, que as forças quebra Da onça e do jaguar. Certo é que um dia (A tribu o conta, e seus pagés o juram) Um dia em que, do filho acompanhado, Ia costeando a orla da floresta, Um possante jaguar, escancarando A bocca, em frente do famoso chefe Estacára. De longe um grito surdo Solta o jovem guerreiro; logo a setta Embebe no arco, e o tiro sibilante Ia já disparar, quando de assombro A mão lhe afrouxa a distendida corda. A fera o colo timida abatêra, Sem ousar despregar os fulvos olhos Dos olhos do inimigo. Ureth ousado Arco e frechas atira para longe, A massa empunha, e lento, e lento avança; Trez vezes volteando a arma terrivel, Enfim despede o golpe; um grito apenas Unico atroa o solitario campo, E a fera jaz, e o vencedor sobre ella.