Portuguese poem
Ultima Folha
Musa, desce do alto da montanha Onde aspiraste o aroma da poesia, E deixa ao éco dos sagrados ermos A ultima harmonia.
Dos teus cabellos de ouro, que beijavam Na amena tarde as virações perdidas, Deixa cair ao chão as alvas rosas E as alvas margaridas.
Vês? Não é noite, não, este ar sombrio Que nos esconde o céu. Inda na poente Não quebra os raios pallidos e frios O sol resplandecente.
Vês? Li ao fundo o valle arido e secco Abra-se, como um leito mortuario; Espera-te o silencio da planicie, Como um frio sudario.
Desce. Virá um dia em que mais bella, Mais alegre, mais cheia de harmonias, Voltes a procurar a voz cadente Dos teus primeiros dias.
Então coroarás a ingenua fronte Das flôres da manhã,--e ao monte agreste, Como a noiva phantastica dos ermos, Irás, musa celeste!
Então, nas horas solemnes Em que o mystico hymeneu Une em abraço divino Verde a terra, azul o céu;
Quando, já finda a tormenta Que a natureza enlutou, Bafeja a brisa suave Cedros que o vento abalou;
E o rio, a arvore e o campo, A arêa, a face do mar, Parecem, como um concerto, Palpitar, sorrir, orar;
Então sim, alma de poeta, Nos teus sonhos cantarás A gloria da natureza, A ventura, o amor e a paz!
Ah! mas então será mais alto ainda; Lá onde a alma do vate Possa escutar os anjos, E onde não chegue o vão rumor dos homens;
Lá onde, abrindo as azas ambiciosas, Possa adejar no espaço luminoso, Viver de luz mais viva e de ar mais puro, Fartar-se do infinito!
Musa, desce do alto da montanha Onde aspiraste o aroma da poesia, E deixa ao éco dos sagrados ermos A ultima harmonia!