Portuguese poem
Vi
Em vão! Contrario a amor é nulo o esforço humano; É nulo o vasto espaço, é nada o vasto oceano. Solta do chão, abrindo as asas luminosas. Minh'alma se ergue e voa ás regiões venturosas, Onde ao teu brando olhar, ó formosa Corinna, Reveste a natureza a purpura divina!
Lá, como quando volta a primavera em flôr, Tudo sorri de luz, tudo sorri de amor; Ao influxo celeste e doce da belleza, Pulsa, canta, irradia e vive a natureza; Mais languida e mais bella a tarde pensativa Desce do monte ao valle; e a viração lasciva Vai despertar á noite a melodia extranha Que falam entre si os olmos da montanha; A flôr tem mais perfume e a noite mais poesia; O mar tem novos sons e mais viva ardentia; A onda enamorada arfa e beija as arêas, Novo sangue circula, ó terra, em tuas veias!
O esplendor da belleza é raio creador: Derrama a tudo a luz, derrama a tudo o amor. Mas vê. Se o que te cerca é uma festa de vida, Eu, tão longe de ti, sinto a dor mal soffrida Da saudade que punge e do amor que lacera, E palpita e soluça e sangra e desespera. Sinto em torno de mim a muda natureza Respirando, como eu, a saudade e a tristeza; É deste ermo que eu vou, alma desventurada, Murmurar junto a ti a estrophe immaculada Do amor que não perdeu, co'a ultima esperança, Nem o intenso fervor, nem a intensa lembrança.
Sabes se te eu amei, sabes se te amo ainda, Do meu sombrio céu alva estrella bemvinda! Como divaga a abelha inquieta e sequiosa Do calice do lyrio ao calice da rosa, Divaguei de alma em alma em busca deste amor; Gota de mel divino, era divina a flôr Que o devia conter. Eras tu. No delirio De te amar--olvidei as lutas e o martyrio; Eras tu. Eu só quiz, n'uma ventura calma, Sentir e ver o amor atravez de uma alma; De outras bellezas vans não valeu o explendor, A belleza eras tu:--tinhas a alma e o amor.
Pelicano do amor, dilacerei meu peito, E com meu proprio sangue os filhos meus aleito; Meus filhos: o desejo, a quimera, a esperança; Por elles reparti minh'alma. Na provança Ella não fraqueou, antes surgiu mais forte; É que eu puz neste amor, neste ultimo transporte Tudo o que vivifica a minha juventude: O culto da verdade e o culto da virtude, A venia do passado e a ambição do futuro, O que ha de grande e belo, o que ha de nobre e puro.
Deste profundo amor, doce e amada Corinna, Accorda-te a lembrança um éco de afflicção? Minh'alma pena e chora á dôr que a desatina: Sente tua alma acaso a mesma commoção?
Em vão! Contrario a amor é nada o esforço humano, É nada o vasto espaço, é nulo o vasto oceano!
Vou, sequioso espirito, Cobrando novo alento, N'aza veloz do vento Correr de mar em mar; Posso, fugindo ao carcere, Que á terra me tem prezo, Em novo ardor aceso, Voar, voar, voar!
Então, se á hora languida Da tarde que declina, Do arbusto da collina Beijando a folha e a flôr, A brisa melancolica Levar-te entre perfumes Uns timidos queixumes Echos de magua e dôr;
Então, se o arroio timido Que passa e que murmura Á sombra da espessura Dos verdes salgueiraes. Mandar-te entre os murmurios Que solta nos seus giros, Uns como que suspiros De amor, uns ternos ais;
Então, se no silencio Da noite adormecida, Sentires--mal dormida-- Em sonho ou em visão, Um beijo em tuas palpebras, Um nome aos teus ouvidos, E ao som de uns ais partidos Pulsar teu coração;
Da magoa que consome O meu amor venceu; Não tremas--é teu nome, Não fujas--que sou eu!