Portuguese poem
Visio
Eras pallida. E os cabellos, Aereos, soltos novellos, Sobre as espaduas as cahiam... Os olhos meio-cerrados De volupia e de ternura Entre lagrimas luziam... E os braços entrelaçados, Como cingindo a ventura, Ao teu seio me cingiam...
Depois, naquelle delirio, Suave, doce martyrio De pouquissimos instantes, Os teus labios sequiosos, Frios, tremulos, trocavam Os beijos mais delirantes, E no supremo dos gozos Ante os anjos se casavam Nossas almas palpitantes...
Depois... depois a verdade, A fria realidade, A solidão, a tristeza; Daquelle sonho desperto, Olhei... silencio de morte Respirava a natureza-- Era a terra, era o deserto, Fôra-se o doce transporte, Restava a fria certeza.
Desfizera-se a mentira: Tudo aos meus olhos fugira: Tu e o teu olhar ardente, Labios tremulos e frios, O abraço longo e apertado, O beijo doce e vehemente; Restavam meus desvarios, E o incessante cuidado, E a phantasia doente.
E agora te vejo. E fria Tão outra estás da que eu via Naquelle sonho encantado! És outra, calma, discreta, Com o olhar indifferente, Tão outro do olhar sonhado, Que a minha alma de poeta Não vê se a imagem presente Foi a visão do passado.
Foi, sim, mas visão apenas; Daquellas visões amenas Que á mente dos infelizes Descem vivas e animadas, Cheias de luz e esperança E de celestes matizes; Mas, apenas dissipadas, Fica uma leve lembrança, Não ficam outras raizes.
Inda assim, embora sonho, Mas, sonho doce e risonho, Désse-me Deus que fingida Tivesse aquella ventura Noite por noite, hora a hora, No que me resta de vida, Que, já livre da amargura, Alma, que em dores me chora. Chorára de agradecida!