Versos Portuguese Machado de Assis Xi

Portuguese poem

Xi

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Os cantos cessam. Calou-se o maracá. As roucas vozes Dos férvidos guerreiros já reclamam O brutal sacrificio. Ás mãos das servas A taça do cauim passara exhausta. Inquieto aguarda o prisioneiro a morte. Da nação guayanaz nos rudes campos Nasceu. Nos campos da saudosa patria Industriosa mão não sabe ainda Alevantar as tabas. Cova funda Da terra, mãe comum, no seio aberta, Os acolhe e protege. O chão lhes forra A pele do tapir; continua chamma Lhes suppre a luz do sol. É uso antigo Do guayanaz que chega a extrema edade, Ou de mortal doença accomettido, Não expirar aos olhos de outros homens; Vivo o guardam no bojo da igaçaba, E á fria terra o dão, como se fôra Pasto melhor (melhor!) aos frios vermes. Do almo, doce licor que extrai das flôres Mãe do mel, iramaya, larga cópia Pelos robustos membros lhe coaram Seis anciãs da tribu. Rubras pennas Na vasta fronte e nos nervosos braços Garridamente o enfeitam. Longa e forte A mussuranna os rins lhe cinge e aperta. Entra na praça o funebre cortejo. Olhar tranquillo, inda que fero, espalha O indomado captivo. Em pé, defronte, Grave, silencioso, ao sol mostrando De feias cores e vistosas plumas Singular harmonia, aguarda a victima O executor. Nas mãos lhe pende a enorme Tagapema enfeitada, arma certeira, Arma triumphal de morte e de exterminio. Medem-se rosto a rosto os dois contrarios C'um sorriso feroz. Confusas vozes Enchem subito o espaço. Não lhe é dado Ao vencido guerreiro haver a morte Silenciosa e triste em que se passa Da curva rede á fria sepultura. Meigas aves que vão de um clima a outro Abrem placidamente as asas leves, Não tu, guerreiro, que encaraste a morte, Tu combate! Vencido e vencedores Derradeiros escarneos se arremessam; Gritos, injurias, convulsões de raiva, Vivo clamor accorda os longos ecos Das penedias proximas. A clava Do executor girou no ar trez vezes E de leve caiu na grossa espadua Do arquejante captivo. Já na boca, Que o desprezo e o furor n'um riso entreabrem, Orla de espuma alveja. Avança, corre, Estaca... Não lhe dá mais amplo espaço A mussurana, cujas pontas tiram Dois mancebos robustos. Nas cavernas Do longo peito lhe murmura o odio, Surdo, como o rumor da terra inquieta, Pejada de vulcões. Os labios morde, E, como derradeira injuria, á face Do executor lhe cospe espuma e sangue. Não vibra o arco mais veloz o tiro, Nem mais segura no aterrado cervo Feroz succuriuba os nós enrosca, Do que a pesada, enorme tagapema A cabeça de um golpe lhe esmigalha. Cae fulminada a vitima na terra, E alegre o povo longamente applaude.