Versos Portuguese Machado de Assis Xii

Portuguese poem

Xii

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Na voz universal perdeu-se um grito De piedade e terror: tão fundo entrára Naquella alma roubada á noite escura Raio de sol christão! Potyra foge, Pelos bosques atonita se entranha E pára á margem de um pequeno rio; Pousa na relva os tremulos joelhos E nas mimosas mãos esconde o rosto. Não de lagrimas era aquelle sitio Ou só de doces lagrimas choradas De olhos que amor venceu:--macia relva, Leito de sesta a amores fugitivos. Da verde, rara abobada de folhas Tepida e doce a luz coava a frouxo Do sol, que, além das arvores, tranquillo, Metade da jornada ia transpondo. Longe era ainda a hora melancholica Em que a geremma cerra a miuda folha, E o lume azul o pyrilampo accende. De pé, a um velho tronco descoroado Da copada ramagem, resto apenas, Vestigio do tufão, a indiana moça Languidamente encosta o esbelto corpo. Neste ameno recesso tudo é triste, Porque é alegre tudo. Não mui longe Um desfolhado ipê conserva e guarda Flôres que lhe ficaram de outro estio, Como esperança de folhagem nova, Flôres que a desventura lhe ha negado, A ella, alma esquecida nesta terra, Que nada espera da estação vindoura. Olha, e de inveja o coração lhe estalla. Pelo tronco das arvores se enroscam Parasitas, esposas do arvoredo, Mais fieis não, mais venturosas que ella. Morrer? Descanso fôra ás maguas suas, Mais que descanço, perduravel gozo, Que a nossa eterna patria aos infelizes Deste desterro guarda alvas capellas De não-murchandas e cheirosas flôres. Tal lhe falava no intimo do peito Desespero cruel. Alguns instantes Pela cansada mente lhe vagaram De voluntaria, abreviada morte, Luctuosas ideias. Mal comprehende Esses desmaios da creatura humana Quem não sentiu no coração rasgado Abatimento e enôjo; ou, mais do que isto, Esse contraste immenso e irreparavel Do amor interno e a solidão da vida. Rapido espaço foi. Prompto lhe volve Doce resignação, christã virtude, Que desafia e que assoberba os males. As debeis mãos levanta. Já dos labios Solta nas azas de oração singella Lastimas suas... Na folhagem secca Ouve de cautos pés rumor sumido, Volve a cabeça...