Portuguese poem
Anarda colhendo neve
by Manuel Botelho de Oliveira (1636–1711)
Colhe a neve a bela Anarda, E nos peitos incendidos Contra delitos de fogo Arma de neve castigos.
Na brancura, na tibieza Tem dois triunfos unidos; Vence a neve à mesma neve, Vence o frio ao mesmo frio.
Congela-se, e se derrete De sorte, que em branco estilo A um desdém se há congelado A dois sóis se há derretido.
Se não é que os candores Daquela neve vencidos, Liquidam-se pranto a pranto, Lastimam-se fio a fio.
As mãos escurecem tanto A neve, que em pasmos lindos O que era prata chuvosa, Ficava azeviche tíbio.
A seu Sol suspiros voam, E tornam por atrevidos, Como exalações do peito, Em nevados desperdiços.
Da neve tiros me vibra, E felizmente imagino Que não são tiros de neve, Que são mãos de Anarda os tiros.
Frustra a neve seus efeitos, Que me tinham defendido, De Anarda o Sol luminoso, De Amor o fogo nocivo.