Portuguese poem
Anarda doente
by Manuel Botelho de Oliveira (1636–1711)
Anarda enferma flutua, E quando flutua enferma, Jaz doente a fermosura, Está fermosa a doença.
Se nela a doença triste Bela está, que será nela De tanta graça o donaire! De tanta luz a beleza!
Se o mal é sombra, ou eclipse, É pensão das luzes certa, Que ao Céu uma sombra aspire, Que ao Sol um eclipse ofenda.
Cruéis prognósticos vejo, Pois são ameaças feras, O Sol entre eclipses pardos, O Céu entre nuvens densas.
Quando as belas flores sentem De Anarda a grave tristeza, Digam-no as rosas na face, Digam-no os jasmins na testa.
Faltam flores, faltam luzes, Pois ensina Anarda bela Lições de flores ao Maio, E leis de luzes à Esfera.
As almas se admiram todas Em repugnâncias austeras, Vendo enferma a mesma vida, Vendo triste a glória mesma.
Desdenhado Amor se vinga, Se n'ânsia a febre a condena; Pois qual ânsia amor se forja, Pois qual febre amor se gera.
Basta já, Frecheiro alado, Bate as asas, solta a venda; Do rosto o suor lhe alimpa, Do peito o ardor refresca.
Vem depressa, Amor piedoso Que te importa, pois sem ela Em vão excitas as chamas, Em vão despedes as setas.
Mas não teme a morte Anarda, Que se ũa morte a cometa, Com mil almas se defende, Com mil corações se alenta.
De mais sim que nunca a Parca Contra Anarda se atrevera, Que contra as frechas da Morte Fulmina de Amor as frechas.