Portuguese poem
Anarda cingindo uma espada
by Manuel Botelho de Oliveira (1636–1711)
Varonilmente arrogante Anarda se considera, Já na fereza da espada, Já na espada da fereza.
Em dois assombros unidas, Duas Deusas se vêem nela; Fermosa Vênus se aclama, Armada Palas se ostenta.
Não é muito que valente Se preze, pois sempre altera, Valentias no donaire, Valentias na beleza.
Quis aumentar os rigores; Por que matasse soberba, Já da beleza nas luzes, Já do ferro nas violências.
Porém parece frustrado, Se o mortal ferro se empenha; Porque quando esgrime o ferro, Já deu morte à gentileza.
Porém quando mata os peitos, Que ressuscitam de vê-la, Noutra morte os ameaça, Noutra vida os atropela.
Se já não é, que cingindo Dura espada, representa Da beleza a guerra dura, Que a beleza é dura guerra.
Armada do agrado, e ferro, Um, e outro brio aumenta, Sendo mais que armada amada, Mais que belicosa bela.
Desigual c'o Deus menino Se arma, ela a luz, ele a venda, Ela ornada, ele despido, Ela a espada, Amor a frecha.
Deixa as armas, lhe disse, Cruel, atenta Que nas luzes fulminas Armas mais feras.
Se é para render vidas, As armas deixa; Todo o peito a teus olhos A vida entrega.
De ponto em branco armada Sempre te asseias, De ponto a boca em branco A fronte amena.