Versos Portuguese Manuel Botelho de Oliveira Alegre o dia em pompas festejadas

Portuguese poem

Alegre o dia em pompas festejadas

by (1636–1711)

Listen in the reader

A Luís de Sousa Freire entrando de capitão de infantaria nesta praça no tempo em que era governador do Estado do Brasil Alexandre de Sousa Freire

I Alegre o dia em pompas festejadas Nos estrondos das armas repetidos, Entre aplausos de afetos bem nascidos, Entre mágoas de invejas malcriadas: Das militares turbas ordenadas Feito esquadrão na Praça belicoso, Brilha Apolo invejoso, E quer formar por competências belas Praça de luzes, esquadrão de estrelas.

II Nas várias galas, que a Milícia airosa Com bom gosto traçou, vestiu com graça, Entre as cores do adorno a mesma Praça Parece Primavera belicosa: De sorte que por glória misteriosa Flora, e Belona alegremente unidas, Em armas aplaudidas, Entre os caprichos da Milícia ornada, Florida está Belona, Flora armada.

III Sendo triste o valor por iracundo, E sendo a guerra feia por esquiva, Quando mortais ações aquele aviva, Quando esta ostenta a Marte furibundo; Hoje se veste com primor jucundo Do que teceu Itália, Holanda, e França A Militar pujança; Hoje na pompa, que esta, e aquele encerra, Fica alegre o valor, fermosa a guerra.

IV No militar concurso o Deus vendado Deseja acompanhar-vos, Freire belo, E para retratar Márcio desvelo De aljava, e frechas se oferece armado: Hoje ser vosso Alferes alentado Quisera Amor; e em fácil simpatia Da bélica alegria Ensaiando-se em uma, e outra prenda, Venáb'lo a seta faz, bandeira a venda.

V Vomitado o sulfúreo mantimento Do fogoso arcabuz entre os sentidos, Perdem-se nos estrondos os ouvidos, E nos ares feridos geme o vento: Parece tempestade, e no ardimento Da pólvora se forja o raio errante, Nuvens o militante Esquadrão condensado, quando em giros É relâmpago o ardor, trovões os tiros.

VI Quantas bandeiras vedes despregadas Por lisonja de bélicos empenhos, Vos hão de ser felices desempenhos, Inda hão de ser por vossa destra honradas: Que sendo as inimigas castigadas, Cingida a fronte de Apolíneo louro, Com venturoso agouro Tereis, logrando sempre igual vitória, Não glória de troféus, troféus de glória.

VII Quando a lança brandis heroicamente No flórido verdor da gentileza, Vos prognosticam todos na destreza De general o cargo preminente: Para apoio fatal da Lísia gente Sereis na guerra Aquiles Lusitano Contra o Império Otomano, E mudareis por que ele se submeta, Em bastão grave a desigual gineta.

VIII Do veneno gostoso, bem que ardente. Gloriosamente Vênus abrasada Com dois motivos, tanto amor lhe agrada, Se vos vê belo, se vos vê valente: Renovando as memórias igualmente De Adônis, e de Marte já queridos, Ressuscita os sentidos, E a vós só rende, quanto aos dois reparte, Pois novo Adônis sois, e novo Marte.

IX Cioso o Trácio Deus se convertera Em nova Fera, que seu mal vingara, Se em vosso peito o ardor não respeitara, Se em vosso rosto o gesto não temera: Com causas duas maior queixa altera De dois agravos, pois de amor cioso, Do valor receoso, Vosso primor a Marte desabona, Pois vos quer Vênus, pois vos quer Belona.

X Na forja Lilibéia fatigado Vulcano está, que Citeréia amante Lhe pede um forte escudo rutilante Para cobrir-vos, Freire, o peito amado: Nas férreas oficinas ocupado, Lhe falta o braço já, já nos suores Correm rios de ardores, E quando gota a gota estila a fronte, Queima o ar, coze o ferro, abala o monte.

XI Com sutil traça, com engenho agudo, Competindo a fadiga, e sutileza, Grava Vulcano por maior empresa O brasão nobre no brilhante escudo: Dos vossos ascendentes bem que mudo As grandezas publica generosas, Quando em ações famosas Os vossos Sousas têm por Armas suas As Régias Quinas, as partidas Luas.

XII O semblante da guerra temeroso Nos poucos lustros não vos mete horrores, Bem que logreis nos anos os verdores, Primeiro que varão sois valoroso: Antecipais à idade o brio honroso, Qual Águia, qual Leão sois parecido No vôo, e no bramido, Porque as feras despreza, e ao Sol se aprova, Bem que novo Leão, bem que Águia nova.

XIII Não obra em vosso peito o esforço tarde, Já da guerra o rigor tendes bebido, Que do exemplo de Avós já persuadido, Vos ferve o sangue, o coração vos arde: Em tão floridos anos vos aguarde Feliz a sorte; e chegareis ditoso A ser Herói famoso: Que quando brilha o Sol no roxo Oriente, Chega a luz clara ao pálido Ocidente.

XIV Sabendo as artes do Mavórcio ofício, A roda não temais da Deusa cega, Que quando vosso ardor nele se entrega, Já Mercúrio vos dita esse exercício: Com sábio esforço, sem grosseiro vício Vosso gênio será sempre afamado, Das artes ajudado, Dando Mercúrio contra a sorte avara A firme base, a poderosa vara.

XV De vosso tio Sousa esclarecido Que as ações imiteis agora espero, Que inda sente Marrocos horror fero, Com que dos Africanos foi temido: E em paga do valor sempre aplaudido América governa venturosa Na presença gloriosa, Que a parte de dois mares satisfeita África o teme, América o respeita.

XVI Vede de vosso tio a clara história. Com que valente, e sábio já se aclama, Dando-lhe ilustremente a mesma fama O templo altivo da imortal memória: Sendo dele a virtude tão notória, Emudece a calúnia de admirada, E para avantajada Glória sua, que o mérito lhe veja, Vença o Mundo, honre a Fama, prostre a inveja.

XVII Lenços lhe pinte Apeles excelente, Estátuas lhe consagre Fidias raro, Retrate Apeles seu esforço claro, Esculpa Fídias seu saber prudente: Porém não, que no Céu gloriosamente Altas ações se escrevam de seu brio: Que na fama confio, Se hão de formar para memória delas Tábua o Céu, pena o Sol, tinta as estrelas. Canção, suspende o canto, Que prometo afinar, se Febo inspira, O Plectro humilde, a temerária Lira.