Portuguese poem
À Rosa
by Manuel Botelho de Oliveira (1636–1711)
I Inundações floridas de Amaltéia Prodigamente Clóri derramava E líquida em rocio a sombra feia No fraudulento Bruto, o Sol brilhava: Quando entre tanta flor, que Abril semeia, Fidalgamente a rosa se adornava, Ostentando por garbo repetido De ouro o toucado, de âmbar o vestido.
II Esta gala, que veste generosa, Deve aos cândidos pés da Deusa amante, E ficando no orvalho mais lustrosa, Deve estimar da Aurora o mal constante: De sorte que no prado fica a Rosa Com desditas alheias arrogante, Pois quando se entroniza brilhadora, Sangue de Vênus tem, pranto de Aurora.
III Quando esse Deus de raios aparece, Agrado dando à vista, luz ao prado, A Deidade das flores amanhece, Ao prado dando luz, à vista agrado: E quando a Primavera resplandece Com gala verde, e brilhador toucado, Fica sendo no adorno de verdores Jóia esta flor, e gargantilha as flores.
IV Em galharda altivez tanto se afina, Que vestida de púrpura fermosa Adulação se arroga de divina, Desprezando o primor de majestosa: Por Deidade do campo peregrina Não lhe faltam perfumes de olorosa, E quando Deusa dos jardins e aclamo, Faz templo do rosal, altar do ramo.
V Ave purpúrea no jardim lustroso Soberbamente a considera o dia, As verdes ervas são ninho frondoso, Donde a fragrante adulação se cria: Se respira do alento o deleitoso, Se desprega da pompa a bizarria, Forma em tanta beleza, em olor tanto As folhas asas, a fragrância canto.
VI Com plácidos requebros assistida Do Zéfiro fecundo a Rosa amada, Lhe dá lascivos beijos por querida, E vermelha se faz de envergonhada: Já se encalma com chama padecida, Já respira com ânsia suspirada, Oh como no jardim, quando se adora Sente Zéfiro amor, ciúmes Flora!
VII Como Lua no Céu entre as estrelas, Campa fermosamente em resplandores Entre as flores a Rosa, é Lua entre elas, Brilhando o prado, Céu; astros, as flores: Por vantagens se jacta horas mais belas, Nem se escondem c'o sol os seus primores, Se brilha a Lua; a Rosa vencer trata Com raios de rubi raios de prata.
VIII Mas ai, quão brevemente se assegura A flor purpúrea no primor luzido! Que não logre isenções a fermosura! Que a morte de ũa flor rompa o vestido! Oh da Rosa gentil mortal ventura! Que logo morta está, quando há nascido, Sendo o toucado do infeliz tesouro Em berço de coral sepulcro de ouro.
IX Se vivifica a grã, se olor expira, Dando lisonja ao prado, ornato à fonte, No doce alento, e bela grã se admira De Sido inveja, emulação de Oronte: Mas se vento aromático respira, Mas se lhe pinta o luminoso Etonte Da cor a sombra, passa num momento Qual sombra a sombra, como vento, o vento.
X Se abre a Rosa pomposo nascimento, Se bebe a Rosa nacarada morte, Se foi Sol no purpúreo luzimento, Também se iguala Sol na breve sorte: Se o Sol nasce, e padece o fim violento; Nasce a Rosa, e padece o golpe forte, De sorte que por morta, e por luzente No Ocaso ocaso tem, no Oriente oriente.
XI Se, Anarda, vibras na beleza ingrata Raios de esquiva, de fermosa raios, Adverte, adverte, que um rigor maltrata Adulação de Abris, primor de Maios: Ouve na flor, que desenganos trata, As mudas vozes dos gentis desmaios; Atente enfim teu néscio desvario, Que a fermosura é flor, o tempo Estio.
XII Não queiras, não, perder com cego engano Dessas flores, que logras, a riqueza, Vê pois que cada idade por teu dano É sucessivo Inverno da beleza: Aprende cedo, Anarda, o desengano Desta ufana, já morta, gentileza, Não queiras, não, perder em teu desgosto Do Dezembro da idade o Abril do rosto.