Portuguese poem
A um cupido de ouro, que trazia preso Anarda nos cabelos
by Manuel Botelho de Oliveira (1636–1711)
I Ao Cíprio rapaz, isento, De Anarda prende o rigor; E se prende ao mesmo Amor, Que muito que a um pensamento? Já no solto luzimento Já nos olhos sempre amados, Ali se vêem ponderados, Vencedores, não vencidos, Os seus olhos por Cupidos, Os cabelos por dourados.
II Se já não foi que o Deus cego Quer à bela Anarda amar; Que bem se pode invejar De um Deus tão divino emprego. Em feliz desassossego, Sentindo amorosa brasa, Parece n'ũa, e noutra asa, Quando de amante se enleia, Ouro não, com que se asseia, Chama sim, com que se abrasa.
III Creio já que disfarçado Quer lograr Anarda bela, E naquele ouro desvela Luzimentos de um cuidado: Pois qual Jove namorado Daquele belo tesouro, Um, e outro amante louro, Ambos são no ardor querido, Jove em ouro convertido, Convertido Amor em ouro.