Portuguese poem
À Fonte das Lágrimas
by Manuel Botelho de Oliveira (1636–1711)
Verte pródiga ũa penha Das durezas apesar Serenidades de aljôfar, Esperdiços de cristal.
Esta penha carregada Em triste sombra se faz, Por perder de Inês a luz, Por sentir de Inês o mal.
Dos dois amantes é pranto, Que em ser duro o Amor fatal Entre durezas o guarda, Entre durezas o dá.
Doce, e liberal a prata Fonte de amor se diz já. Que Amor se alimenta doce, Que Amor se induz liberal.
Sua a penha; mas que muito, Se no adusto cabedal Quis pranto de ardor verter, Quis fogo de amor suar.
O Deus Frecheiro se admira De ver que com pranto tal Verde lisonjeia o prado, Ameno respira o ar.
De sua fé retratava A bela Inês singular A constância no penhasco, A pureza no cristal.
Quando voa a turba alada, O vendado Deus rapaz, Faz Cupidilhos das aves, Forma Chipre do lugar.
Os limos no largo tanque Ali se vêm pentear, Que a seus úmidos cabelos Pentes de prata lhes dá.
Ali Vênus celebrada Das cristalinas Irmãs, Estima as Ninfas do tanque, Despreza as Ninfas do mar.
Ali muitos choupos crescem Verdes, que verdes os faz Aquela firme esperança Daquele amor imortal.
A um tempo do vento, e d'água Sobe, e campa cada qual Tifeu do vento frondoso, Narciso d'água galã.
Esta das lágrimas fonte Na douta Coimbra está, Que se é do saber escola, Diz que Pedro soube amar.