Portuguese poem
Anarda chorando
by Manuel Botelho de Oliveira (1636–1711)
Se o mar da beleza temes, Alerta, amoroso peito, Alije-se uma esperança, Amaine-se um pensamento.
Tempestades lagrimosas Te provocam os receios; Pois vejo o dia nublado, Pois não vejo o Céu sereno.
Porém não temas, covarde, Que na cor do rosto belo Navego em maré de rosas, Em um mar leite navego.
Mas inda naqueles olhos Fatal prodígio me temo; Quem viu água em brasas duas? Quem viu chuva em dois luzeiros?
Não são piedade os suspiros, Nem seu pranto, pois é certo Brotar chamas ũa pedra, Abrir fontes um rochedo.
Se são Astros, que me influem, Amor, com razão receio Impiedades nos cuidados, Infortúnios nos desejos.
Vai a meu peito, e seus olhos Pelo amor, pelo tormento Da vida os fios cortando, Do pranto os fios vertendo.
Naquelas águas Cupido, Por avaro, e por severo, Das chamas excita a sede, Das setas amola o ferro.
E quando as lágrimas param Nas gentis faces, pondero Que se faz rubi, parando, O que era aljofre correndo.