Portuguese poem
Ao ouro
by Manuel Botelho de Oliveira (1636–1711)
I Este que em todo o mundo obedecido, Este que respeitado Nos subornos mortais de pretendido, Agravo esquivo, mais que lindo agrado, Morte se aclama, pois da mesma sorte É pálido o metal, pálida a Morte.
II Os Monarcas sustentam poderosos Neste metal prezado Impérios, se violentos, generosos; Porém tendo nos Reis império amado, (Executando fáceis vitupérios) Tem império nos Reis, é Rei de Impérios.
III A justiça corrompe verdadeira; No Ministro imprudente Quebra as regras de justa, as leis de inteira; Pois este forma no interesse ardente (Não com fiel, mas infiel desprezo) Da cobiça a balança, do ouro o peso.
IV Inferno se padece lastimoso, Não se logra Ouro claro Nas graves pretensões de cobiçoso, Nos obséquios solícitos de avaro; Um o procura, outro não goza dele, Este Tântalo está, Sísifo aquele.
V Quando faltava d'ouro a gentileza, A gente pobre, e rica Lograva idade de ouro na pobreza. Mas quando nesta idade se publica Em contrários motivos de impiedade, De ferro idade fez, não de ouro idade.
VI Qual Áspid', que entre flores escondido Na florida beleza Brota ao peito o veneno mal sentido, Assim pois na luzida gentileza Mata o metal, matando brilhadores Nos luzimentos um, outro nas flores.
VII Profanando de Dânae a vã pureza Em chuvosos amores, Apesar de engenhosa fortaleza, Apesar dos cuidados guardadores, Murchou na chuva de ouro rigorosa O modesto jasmim, a virgem Rosa.
VIII Entre o logro da paz solicitada A guerra determina Bem que ouro brilha, enjeita a paz dourada; E quando Márcias confusões afina A paz compra de sorte, que na terra Guerra se vê da paz, é paz da guerra.
IX A Natureza em veias escondidas Cria o metal oculto, Quiçá piedosa das mortais feridas: Mas quando o desentranha humano insulto, Da mesma veia, donde nasce belo, Corre logo a ambição, mana o desvelo.
X O rigor se arma, a guerra se refina, A cobiça se apura, A morte contra o peito se fulmina, O engano contra o peito se conjura De sorte, que acumula ao peito humano Rigor, guerra, cobiça, morte, engano. Canção, suspende já de Euterpe o metro, Que em Fílis tens para cantar no Pindo De seu cabelo de ouro, ouro mais lindo.