Portuguese poem
Descrição do inverno
by Manuel Botelho de Oliveira (1636–1711)
I Ira-se horrendo, e se orna tenebroso Renovado na sombra o Inverno esquivo, Aos afagos do Zéfiro nocivo, Às carícias de Flora rigoroso: Com vestido de nuvens impiedoso Melancólica a fronte carregada, Por velho desagrada, E tendo a chuva sempre em seus rigores, Enfermo está de lânguidos humores.
II Aumenta seu rigor o triste Inverno, Encarcerando no queixoso Pólo A luz propícia do gentil Apolo, E mais que Inverno, fica escuro inferno: Apolo pois com sentimento externo Entra na casa atroz do Deus lunado, Que de luas armado Dois chuveiros vibrando, arma inclementes Em minguantes de Lua, de água enchentes.
III Vomita o Bóreas no furor ingrato O nevado rigor, bem que luzido, Adornando aos jardins branco vestido, Despindo dos jardins o verde ornado: Sendo ao prado nocivo, aos olhos grato, Da neve esperdiçada o candor frio, Nos disfarces de impio Parece a neve em presunção fermosa Emplumado candor, ou lã chuvosa.
IV Prisioneiros se vêem arroios claros, Quiçá, porque murmuram lisonjeiros, Dando às almas avisos verdadeiros, Dando a perfeitos Reis exemplos raros; Da prata fugitiva sendo avaros, O frio caramelo os prende duro: Que pois o cristal puro Corre louco, castigam com desvelo Loucuras de cristal, pedras de gelo.
V A planta mais galharda, que serena Era verde primor, lisonja ornada, Padece nus agravos de prostrada, Perde subornos plácidos de amena; E quando tanta lástima lhe ordena Do vento, bem que leve, a grave injúria, Ao brio iguala a fúria, Pois no exame dos golpes inimigo Folha a soberba foi, vento o castigo.
VI Pede o Céu contra o vale, contra o monte O socorro cruel da horrenda prata, Quando bombardas de granizos trata, Escurecendo a luz na irada fronte; Vertendo bravo sucessiva fonte, Formando condensado guerra escura, Contra a terra conjura Quando não por assombros, por vinganças De sombras esquadrões, de aljôfar lanças.
VII Mas logo o mar soberbo ao mesmo instante Por vingar generoso a terra impura, Levanta de cristais soberba pura, Sacrilégios argenta de arrogante: Pois opõe contra Jove, qual gigante Em montes de cristal de cristal montes, E em densos horizontes Jove quiçá, por fulminar desmaios, De nuvens se murou, se armou de raios.
VIII O lenho pelas ondas navegante Sendo de vários ventos combatido. Teme o profundo mal de submergido, Padece o triste horror de flutuante: A marítima turba naufragante Alarido levanta lastimoso Contra o Céu rigoroso, Vendo que a escura, e súbita procela Quebra o leme, abre a tábua, rompe a vela. Canção, na bela Fílis Outro Inverno repetem mais escuro A tristeza que sinto, a dor, que aturo.