Versos Portuguese Manuel Botelho de Oliveira Que pavor, que crueza?

Portuguese poem

Que pavor, que crueza?

by (1636–1711)

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I Que pavor, que crueza? Que pena, que desdita a Lísia enluta! Já do pranto a tristeza, Como mar lagrimoso, ao mar tributa; Vendo Netuno, para novo espanto, Que tem dois mares, quando corre o pranto.

II Espanha lastimada Pelas razões do sangue generoso, Toda se mostra irada, E brama contra o golpe rigoroso, E para ser no Mundo mais temido, Por boca do Leão faz o bramido.

III Mostra Alemanha o fino Excesso quando sente o seu tormento, Porque do Palatino A pátria faz ser próprio o sentimento; E o Danúbio, que é rio arrebatado, Parece que na dor se vê parado.

IV França, que nobremente A Lusitânia ostenta amor seleto, De luto reverente A seus Francos vestiu com franco afeto; E tendo nesta mágoa altas raízes, Em roxos lírios troca as brancas Lises.

V Itália a dor publica Em Florença, que rica se nomeia, Mas de mágoas é rica; Nápoles bela em dor se torna feia: Porém Roma, que santa se conhece, Com Princesa tão santa se engrandece.

VI América sentida Faz tanta estimação da dor, que ordena, Que desejara a vida Eterna, para ser eterna a pena; E quando no tormento mais se alarga, O doce açúcar troca em pena amarga.

VII A belíssima Aurora, Que chora de Mémnon a morte escura, Também padece, e chora Desta perda cruel a desventura; E com dobrada dor da infausta sorte Se uma morte chorou, chora outra morte.

VIII O Sol, que luminoso Tem o império das luzes no Hemisfério, Já não quer ser lustroso, E quisera largar o claro império, Pois de uma Águia Real na morte triste O majestoso vôo não lhe assiste.

IX Também padece a Lua Desta mágoa infeliz o desalento, E quando mais flutua, No inconstante noturno luzimento Minguante, e cheia está, se a dor se estréia Minguante em glórias, de desditas cheia.

X As estrelas luzentes, Que ao Sol no claro Pólo substituem, Parecendo inclementes, Se presságios cruéis ao Mundo influem, Com tal rigor desta influência usaram, Que em cometas infaustos se trocaram.

XI Os Planetas errantes, Triste a Saturno tem no Céu rotundo; Vênus para os amantes Tem da sorte feliz o bem jucundo; Porém para Isabel, que é Vênus pura, Não quis Vênus ser astro da ventura.

XII O Cipreste funesto, Que se levanta ao Céu triste, e frondoso, Neste tormento infesto Prepara os ramos seus por lastimoso, E tendo o ser, que é só vegetativo, Em corpo se transforma sensitivo.

XIII A pacífica Oliva, Que no Dilúvio foi da paz consorte, Quando sente a nociva Tirania infeliz da Parca forte, Já não serve de paz, antes ostenta O dilúvio das lágrimas, que alenta.

XIV A palma celebrada, Que contra o peso fica mais gloriosa, Agora desmaiada Se vê menos robusta, e vigorosa: Porque ao peso da pena padecida Toda humilde se vê, toda oprimida.

XV O jardim, que florido Era com Flora, e Zéfiro formoso, Hoje se vê despido, Feio, fúnebre, inculto, deslustroso, Porque por esta morte inopinada Zéfiro triste está, Flora anojada.

XVI A Rosa, que ostentava A beleza da púrpura olorosa, E sempre se jactava Ser Rainha das flores imperiosa, Como vê desenganos de Rainhas, Não quer mais que nas dores as espinhas.

XVII O Cravo que exalante Do belo olor se veste de escarlata, Já não brilha flamante, Quando sente da Morte a fúria ingrata, Antes mostra na cor, sangue vestido, Que do golpe da dor ficou ferido.

XVIII O jasmim, que a beleza Tem na neve animada, que a sustenta, Perdeu a gentileza; Já no frágil candor se desalenta; E tendo a Parca a seta despedido, Alvo ficou da seta amortecido.

XIX Sente pois Pedro Augusto Perder o Sol, a flor, o dia claro, Pois tendo sempre adusto Entre chamas de amor o peito caro; Agora vê nas faltas da alegria Posto o Sol, seca a flor, escuro o dia.

XX Sente o culto sagrado De ũa Rainha Santa o afeto pio, Pois com devoto agrado Fazia da humildade o senhorio, Como quem altamente conhecia Que a Púrpura também carcomas cria.

XXI Sente o Palácio ilustre A saudade da altíssima Princesa, A quem deve seu lustre, E da melhor Política a grandeza, Que sendo Palatina, no amor fino Fez do régio Palácio Palatino.

XXII Sentem todas as Damas A falta desta Aurora, que assistiam, E como ilustres ramas Do seu favor o orvalho mereciam, E perderam, faltando seus fulgores, De tantas esperanças os verdores.

XXIII Sente a casta Donzela A falta de Isabel, que tanto amava Quando na idade bela O tálamo ditoso lhe buscava, E se Cupido armava seus enganos, Himeneu casto lhe impedia os danos.

XXIV Sente a caterva pobre Da liberal senhora a perda rara, Quando por mão tão nobre Tantas vidas da morte restaurara, Vencendo contra as Parcas desabridas O poder, que intentavam sobre as vidas.

XXV Sente o Preso os clamores, Que lhe faz padecer a morte brava, Que Isabel com favores Da Justiça os rigores temperava Conhecendo na espada da justiça, Que era o sumo rigor suma injustiça.

XXVI Sente enfim todo o povo Esta tristeza atroz, e desumana: Que não é caso novo Sentirem todos o que a todos dana; Pois perdeu, quando fica ao desamparo, Todo o bem, toda a glória, todo amparo. Canção, suspende o metro, Que de tanta desdita o triste pranto Me desafina a voz, faz rouco o canto.