Versos Portuguese Manuel Botelho de Oliveira Saudades de um esposo amante pela perda de sua amada esposa

Portuguese poem

Saudades de um esposo amante pela perda de sua amada esposa

by (1636–1711)

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I Agora que altamente Me lastima o rigor, me assalta a pena, Agora que eloqüente Fala o silêncio quando a voz condena, Agora pois quando meu Bem me deixa, Corra o pranto, obre a mágoa, suba a queixa.

II Qual flor em flor cortada Te murchaste meu Bem (ah morte feia!) Oh como desmaiada A florida república se afeia, Pois perdeu toda a flor na morte dura, O âmbar leve, a grã bela, a neve pura!

III O sol já retirado Menos formoso, menos claro o vejo, Pois eras seu cuidado; Eras do lindo Sol seu vão desejo, Sendo sim seus ardentes resplandores Não ardores de luz, de amor ardores.

IV Oh como pede à sombra Que o resplandor lhe embargue, a luz lhe furte! E se na dor se assombra, Pede à noite também que o dia encurte, Pois perdeu tristemente na alegria Melhor luz, melhor Alva, e melhor Dia.

V Belíssima senhora, Que choro ausente, que venero amante, Na Pátria vencedora De ũa morte cruel te vês triunfante; E por que venças tudo, em igual sorte Venceste os corações, venceste a morte.

VI Entre mil saudades Morta te estimo, e te desejo viva: Mas ah que em mil idades Se frustra o rogo, a lástima se aviva, Tendo em dobrado mal, que ao peito corta. Vivo o desejo, a esperança morta!

VII Quando te considero Algum tempo em meus braços (ai que mágoa!) Logo este golpe fero O que logro em ardor, me solta em água, Competindo entre si por desafogo Nos olhos a água, e no peito o fogo.

VIII Se vives retratada Neste meu coração, que te ama ausente, Fica a dor mitigada Neste enganoso bem, por aparente; Mas ai que fica, quando a dor me aperta, Falsa a consolação, a mágoa certa!

IX Lá no Empíreo gloriosa Lembra-te deste amor, que tanto apuro: Que esta pena amorosa Solicito constante, fino aturo; E impressa na alma minha pena interna, Fica imortal o amor, a mágoa eterna.

X Deixaste-me uma prenda Para alívio feliz da mágoa crua, Que, quando te eu pretenda, Lograsse meu desejo cópia tua: Mas ai que é maior mal, pois nas memórias Saudades sinto, quando finjo glórias! Canção, depõe o plectro, Que já me impede o pranto Que altere a voz, e que prossiga o canto.